Crude, corona e a curva apertada de Angola

O dia tumultuoso vivido hoje nos mercados de capitais mundo afora terá um impacto sensível em Angola. A crise que começou com a pandemia de infecções por corona vírus (COVID-19) que teve a sua génese na China e cobre hoje parte significativa do globo e gerou um pânico paralisador apesar da taxa de recuperação ser largamente superior a taxa de letalidade que arrefeceu de forma abrupta a economia mundial começando pela redução da actividade económica na China e a seguir, feito efeito borboleta, no resto do mundo com particular impacto no sector do turismo que entre viagens e hospitalidade representa cerca de 10% da economia mundial.

A redução da actividade económica, em particular das indústrias intensivas em energia e nos transportes dependentes de combustíveis fósseis empurraram para sul os preços do petróleo bruto que continua a ser quem paga as nossas contas e, como tal, aumentou a turbulência neste longo voo cujo destino anunciado é o crescimento económico mas que pela duração da viagem sem sinal de aterragem na terra prometida, crescem as incertezas dos passageiros apesar dos discursos tranquilizadores do comandante. Para piorar o cenário que já se apresentava desafiante, a Arábia Saudita não vendo atendida a sua pretensão de uma abordagem concertada para gestão da oferta com a Rússia iniciou contra esta uma guerra de preços que levou o mercado a antecipar um excesso de oferta num contexto de redução da procura por petróleo e o preço do crude afundou com quedas superiores a 20%.

A prevalência deste cenário representa uma ameaça real para a economia angolana que poderá ver o seu fraco desempenho prolongar-se ainda mais, com o risco real de vermos falhar compromissos com detentores de dívida titulada emitida nos mercados internacionais pela República de Angola, ou seja, o temido default e todas as suas consequências como danos reputacionais e natural agravamento das condições de financiamento (as nossas actuais já não são muito famosas). Contudo, para evitar os problemas que um default pode trazer o Governo poderá optar por realizar menos despesas domesticamente, sejam elas correntes ou investimento. Não é um momento fácil para o Governo, em particular para o Ministério das Finanças cuja ministra recentemente anunciou ser precipitado falar em revisão orçamental (OGE tem $55 como preço de referência para o petróleo) e apresentou um plano fiscal que visa aliviar o imposto sobre os lucros e o agravamento da factura fiscal para os proprietários de terras e imóveis ociosos.

Quem é fanático por automobilismo (como eu) conhece o circuito de Spa-Francorchamps na Bélgica e certamente está familiarizado com a secção que se inicia na curva lenta de La Source e termina no fim da recta Kemmel, a parte mais excitante está a meio desta secção: Eau Rouge + Raidillon. Os pilotos precisam de perícia e coragem para executarem esta parte do circuito com a precisão necessária para fazerem o percurso em menos tempo possível e deve ser esta a abordagem para qualquer curva apertada na corrida da vida e espero que os pilotos que comandam as nossas finanças tenham perícia e coragem para saírem desta complicada secção do infernal circuito que é a nossa economia.

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Eau Rouge, Spa-Francorchamps – Bélgica

A precisão nunca foi o forte da nossa execução orçamental que historicamente experimenta grandes desvios e se o preço médio continuar muito abaixo do orçamentado veremos certamente a quota do serviço da dívida pública superar os quase 57% previstos do orçamento ou, em alternativa, o Governo poderá falhar nos seus compromissos com os credores uma vez que sem uma reestruturação a negociar será impossível satisfazer os compromissos com credores externos sem prejudicar a execução orçamental doméstica mantendo-se o cenário assustador que temos em mãos.

Angola está a meio de uma curva apertada e apenas um ás do volante e uma mudança de tempo para ventos favoráveis nos poderá livrar do desastre.

Os motores da Formula 1, o carro eléctrico e o futuro do petróleo

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Em 2014 a Formula 1 (F1) deixou de usar os motores 2.4 L V8 naturalmente aspirados e passou a usar propulsão híbrida com unidades de potência (power units) compostas por um motor a gasolina 1.6 L V6 Turbo e por duas unidades eléctricas alimentadas pela energia gerada pelo próprio carro. Esta mudança gerou alguma polémica porque a F1 perdeu o som raivoso dos motores e os carros passaram a ser mais lentos (neste caso não só pelo motor, mas também pelos pneus e limitação regulamentar do fluxo de combustível). Contudo, estas mudanças foram exigidas pelos construtores de motores – nomeadamente a Renault – anos antes, para que a categoria estivesse alinhada com o caminho que a indústria de automóveis estava a seguir: motores híbridos que permitem reduzir o consumo de combustível, sem que isto implique perca de performance. Com esta mudança de paradigma a F1 de 2015 consome menos 35% de gasolina que em 2013.

Eu tive o prazer de ouvir o inquietante roncar dos motores V8 na F1 que é de facto mais impressionante que o som expelido pela propulsão V6 Turbo Híbrida, mas a nova configuração é o futuro e antes de ser usada na F1 já estava nas estradas e os construtores pretendem usar a F1 como laboratório para desenvolver ainda mais a tecnologia que nas estradas já não se resume aos pequeno-citadinos uma vez que os três super desportivos de série mais espectaculares lançados nos últimos tempos são três híbridos que usam uma tecnologia semelhante a da Formula 1: (i) McLaren P1, (ii) Porsche 918 Spyder, e (iii) Ferrari LaFerrari.

Segundo a Llewellyn Consulting citada por um colunista do The Guardian, se o mundo adoptasse a tecnologia da F1 poderia poupar cerca de 2% ou mais em consumo de petróleo bruto por ano, adicionando mais uma questão a sustentabilidade da procura de petróleo no longo prazo, sobretudo porque o sector automóvel, um dos maiores consumidores de combustíveis, não se quer ficar pelos carros híbridos e avança decididamente para adopção do carro eléctrico. A Tesla sediada nos Estados Unidos terá a companhia de outras marcas de luxo na produção de carros eléctricos em breve: a BMW anunciou que vai converter toda sua gama para carros eléctricos e híbridos no futuro próximo enquanto que a Porsche apresentou no salão automóvel de Frankfurt o protótipo Mission E, uma espécie de Porsche Panamera eléctrico que recorreu à tecnologia que a marca alemã usou no protótipo 919 Hybrid LMP1 (construído para disputar o World Endurance Championship (WEC) também conhecido por Le Mans series) e que poderá estar nas estradas no final desta década.

A Federação Internacional do Automobilismo (FIA) que organiza os campeonatos da F1 e WEC onde abundam vários híbridos produzidos por grandes construtores (como Porsche, Audi, Peugeot, Toyota e Nissan) lançou a Formula E, uma espécie de Formula 1 de carros eléctricos que foi recebida na sua época de estreia com algum entusiasmo pela indústria, adeptos e patrocinadores, atraindo vários ex-pilotos da F1.

Apesar do entusiasmo de alguns sobre o futuro do automóvel e como isto poderá impactar a procura do petróleo, no momento as vendas de carros eléctricos e híbridos ainda não conseguiram ganhar tracção; nos Estados Unidos os carros eléctricos vendidos no final de 2014 eram cerca de 200 mil, muito abaixo do um milhão que antecipava Barack Obama – na altura senador – em 2006 sendo que a empresa Navigat prevê que só em 2025 a frota de carros eléctricos nos Estados Unidos atingirá um milhão.

Se aposta da Google (ou Alphabet) no “carro auto-dirigido” gerou mais curiosidade do que interesse generalizado da indústria automóvel, a mudança de estratégia da BMW está a ser recebida com alguma apreensão pois poderá trazer consigo outras grandes marcas para a festa dos eléctricos e híbridos e pressionar a procura de petróleo cujo preço, dentre outros factores, já está a ser afectado pelo aumento da produção global. Sendo assim, não é disparatado esperar que dentro de 15 anos a configuração do motor dos nossos carro exija menos combustível e que a procura global pelo ouro negro deixe de crescer ao ritmo da última década.