Book Club | “Private Empire: ExxonMobil and American Power”

27book-superjumboO novo secretário de Estado dos Estados Unidos, Rex Tillerson, era até bem pouco tempo o CEO da ExxonMobil, a empresa que ao longo das últimas décadas tem sido consistentemente a maior ou segunda maior empresa do mundo usando diferentes métricas. O reputado jornalista e escritor Steve Coll publicou há alguns anos aquele que é considerado o melhor livro sobre a ExxonMobil (Exxon) em particular e um dos melhores livros sobre o sector petrolífero no geral.

O livro “Private Empire” ajuda-nos a conhecer melhor o poder, a complexidade e sobretudo a forma de funcionamento da ExxonMobil que a partir do Texas gere um império privado cujo modelo de negócio implica à muitos choques com a própria política externa dos Estados Unidos. No livro, Coll recorda uma resposta de Lee Raymond – CEO que antecedeu Tillerson – quando lhe foi questionado por outro oil man se estaria interessado em investir em refinarias nos Estados Unidos para proteger os Estados Unidos de uma possível crise de gasolina, Raymond respondeu simplesmente “Não sou uma empresa dos Estados Unidos e não tomo decisões com base no que é bom para os Estados Unidos”.

O livro percorre boa parte da história da Exxon, desde os tempos que John D. Rockefeller fundou a Standard Oil em 1870 que foi partida em várias empresas por exigência regulatória no início do século XX e uma das empresas que resultaram desta decisão que procurava melhorar a concorrência no sector veio a tornar-se no gigante que conhecemos hoje como ExxonMobil ao longo de muitos anos. Coll aborda com detalhe o acidente com o petroleiro Exxon Valdez no Alasca em 1989 e estende a história da empresa até à primeira década do século XXI marcada pela aposentadoria de Lee Raymond e a ascenção ao topo de Rex Tillerson.

Raymond, que liderou a empresa entre 1993 e 2005, uma política de segurança restritiva e de aplicação ampla que custa milhões de dólares anualmente mas protege a empresa e os seus colaboradores dos riscos inerentes a actividade petrolífera, assim como protege os seus interesses de possíveis custos reputacionais associados aos acidentes que acontecem na indústria petrolífera que por norma têm grande impacto ambiental. Raymond pregou igualmente uma postura de independência do poder político que, como grande parte das grandes empresas americanas, foi sempre alvo de lobby por parte da Exxon que procurava influenciar a direcção das políticas que afectam as operações nos Estados Unidos e no exterior. Com efeito, é no exterior que a Exxon actua com maior liberdade, tendo inclusive departamentos próprios que estudam questões geopolíticas que superam em capacidade e qualidade os serviços secretos de muitos países onde a Exxon mantém operações, designadamente as nações africanas.

Coll conta ainda que a empresa que construiu uma reputação de disciplina financeira e engenharia de excelência sempre teve uma postura conservadora na exploração petrolífera no exterior mas quando viu-se ameaçada pela presença na exploração externa por outras petrolíferas ocidentais e com cada vez mais restrições na exploração petrolífera no offshore americano a Exxon apostou numa expansão da exploração e produção fora dos Estados Unidos que levou a empresa a apostar em África, na Ásia e na Rússia e este novo modelo alimentou a reestruturação no governance da empresa e fez crescer o poder económico e político global da Exxon que opera em Angola com a marca Esso.

“Private Empire” é um bom livro para entender como funciona a Exxon que é tida como um exemplo de disciplina financeira, execução operacional e capacidade de negociação com diferentes actores políticos e sociais, embora tenha uma relação complicada com os ambientalistas apesar de nos últimos anos sob direcção de Rex Tillerson a empresa ter mudado consideravelmente o seu posicionamento público sobre as energias renováveis e sobre o impacto dos combustíveis fósseis no meio ambiente. O livro traz vários episódios pouco abonatórios para a imagem exemplar que Exxon procura cultivar com actuação em vários países com instituições frágeis num sector altamente competitivo que muitas vezes conduziu a escolhas pouco ortodoxas. Contudo, a imagem da empresa não sai necessariamente chamuscada uma vez que fica latente que o rigor e espírito de santidade dos contratos ditam as principais decisões da empresa.

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Book Club | “Korea: The Impossible Country”

koreatheimpossibleO livro de Daniel Tudor –  “Korea: The Impossible Country” – conta a história de um país que tinha muito para dar errado mas acabou numa das mais impressionantes histórias de desenvolvimento económico e progresso social da era moderna.

Daniel Tudor, é britânico e correspondente da The Economist na Coreia do Sul e de forma magistral percorre a história coreana, visitando a “alma” da nação, o seu passado de nação frágil submetida ao domínio dos vizinhos gigantes China e Japão, a sua relação com a religião e com misticismo e o compromisso nacional com a educação de qualidade. Tudor aborda ainda como a segunda guerra mundial dividiu o país, propiciou a guerra civil que culminou com a intervenção das potências mundiais. A derrota do Japão na segunda grande guerra levou à divisão da península em dois países distintos: a norte a República Popular Democrática da Coreia que de democrática não tem nada e parece inspirar-se na Oceania do clássico “1984” de George Orwell e a sul a República da Coreia, comummente chamada de Coreia do Sul.

A Coreia do Sul dos primeiros anos pós-divisão viu a liderança alternar entre diferentes líderes autoritários como Syngman Rhee e Chang Myon apesar da presença e apoio dos Estados Unidos que administraram o país entre 1945 e 1948. Contudo, o país mostrou-se desde o início comprometido com o desenvolvimento e procurou usar da melhor forma o seu principal activo: as pessoas. Ainda sob liderança autoritária de Park Chung-hee, que tomou o poder em 1961, a Coreia do Sul começou a dar passos mais decisivos. A boa base de formação aliada à um conjunto de políticas orientadas para o mercado (com forte pendor exportador) deu sustentação ao milagre coreano cujos progressos anos mais tarde foram igualmente sentidos a nível dos direitos civis dos cidadãos, sendo que a Coreia do Sul de hoje não só é um dos países mais ricos da Ásia (e do mundo) como é uma democracia liberal.

Daniel Tudor apresenta também no seu livro algumas questões que se apresentam como desafios para a Coreia nos próximos anos a nível político (como a relação com a vizinha Coreia do Norte) e a nível económico (o domínio exercido sobre a economia pelos grandes conglomerados – chaebol – como a Samsung e Hyundai). Contudo, a principal lição que se retira do livro é o valor da educação de qualidade combinada com políticas orientadas para produção de bens e serviços competitivos a nível global. O início proteccionista da política comercial coreana deu espaço na década de 1980 à uma abordagem mais liberal de forma a melhorar a qualidade da produção local por via da concorrência externa e assim competir a nível global e os resultados estão à vista de todos pela presença de marcas coreanas no mundo tecnológico e nas indústrias automóvel e petrolífera.

A pequena economia rural dos anos 1950 sobreviveu à guerra, à tentativa de ocupação da Coreia do Norte, aos primeiros anos de governos autoritários falhados e conseguiu tornar-se num país industrializado e rico, quase totalmente urbanizado que é referência nas mais variadas áreas da vida social e económica como cinema, desporto, tecnologia, música, indústria pesada e tantos outros. A Coreia de 1950 era pobre e rural, com uma história de ocupação externa, guerras e humilhação como muitos países africanos que começaram a tonar-se independentes na década de 1960, mas as semelhanças partilhadas há cerca de 60 anos deram lugar à um contraste gritante a desfavor dos países africanos, a instabilidade política continuou a ser partilhada por muitos anos depois de 1960, apesar da economia coreana não ter parado de desenvolver-se quando em África o retrocesso económico virou norma.

As escolhas feitas e a correcção (ou não) de erros do passado traduziram-se na criação de ecossistemas socioeconómicos distintos na Coreia do Sul e na grande maioria dos países africanos como o nosso. Um ecossistema produziu riqueza e a partilhou e outro destruiu capacidade produtiva e andou aos solavancos a nível de progresso social, continuando hoje a alternar entre sinais encorajadores e a persistência nos erros do passado. O livro “Korea: The Impossible Country” tem valiosas lições para a construção de um país próspero e estável, sobretudo para encurtar caminhos e evitar dissabores.

O modelo Coreano continua a gerar riqueza e garante a manutenção do país na liga das nações mais ricas do mundo e o economista brasileiro Ricardo Amorim publicou há algum tempo um vídeo elucidativo no seu canal do YouTube que compara o seu Brasil ao país impossível: 

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Título: “Korea – The Impossible Country” | Autor: Daniel Tudor

Book Club | “The Anatomy of the Resource Curse: Predatory Investment in Africa’s Extractive Industries”

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O relatório especial do Africa Center for Strategic Studies (ACSS) “The Anatomy of Resource Curse” que bem poderia ser um livro está disponível livremente em versão PDF e procura explicar a “maldição dos recursos” servindo-se de vários exemplos de como a má gestão pública dos recursos naturais tem comprometido o desenvolvimento económico e social nos países ricos em recursos naturais como Angola. Com efeito, o nosso país ocupa o papel central do relatório desta organização sediada nos Estados Unidos, sendo a relação das instituições públicas angolanas e dos seus representantes com o “Queensway Group” o objecto principal do relatório.

O Queensway Group é o nome pelo qual passou a ser conhecido o grupo de empresas ligadas a um grupo de empresários chineses com alegadas ligações aos serviços secretos e governo daquele país asiático

O relatório reproduz uma frase dita por um diplomata baseado em Luanda que resumiu a relação entre entidades angolanas e o grupo chinês cuja cara mais visível é o CIF da seguinte forma:

“The only person who could figure out the relationship between the CIF and the [GRN] is Al Capone’s bookkeeper.”

Book Club | “The Tyranny of Experts: Economists, Dictators, and the Forgotten Rights of the Poor”

Durante o último século a pobreza global tem sido encarada como um “problema técnico” cuja solução passa pela implementação de práticas desenhadas e aplicadas por “especialistas”. No entanto, com mais frequência que o ideal, os ditos especialistas focam em recomendar soluções para problemas imediatos sem tocar nos factores políticos sistémicos que em primeira instância criaram as condições para expansão da pobreza. Ademais, infelizmente, a lógica do “especialista” leva-os muitas vezes ao conluio com autocratas, encobertos na falácia do “autocrata benevolente” mesmo que o regime desrespeite os mais básicos direitos dos pobres.

William Easterly que também é autor do best-seller “White Man’s Burden” volta a visitar os problemas do desenvolvimento económico em “The Tyranny of Experts” e traça a história da luta contra pobreza global, demonstrando que a abordagem dos especialistas não só ignorou os direitos dos pobres como reprimiu o debate sobre abordagens alternativas como muito se debateram John Bell Condliffe e Friedrich Hayek: o desenvolvimento em liberdade. A teoria defendida por Easterly em “The Tyranny of Experts” é suportada por uma pesquisa económica profunda e moderna, Easterly argumenta que apenas um novo modelo de desenvolvimento baseado no respeito pelos direitos individuais das pessoas em países em desenvolvimento, que entende que o poder do Estado sem limites é o problema e não a solução – será capaz de acabar com a pobreza global de forma eficaz.

O modelo de desenvolvimento que aposta no forte intervencionismo do estado e na limitação de liberdades individuais tem grandes custos sociais e apresenta grandes incertezas no médio-longo prazo. É uma aposta no incerto que na maior parte das vezes correu mal. Aliás, as “meninas bonitas” dos defensores do modelo dos especialistas – Singapura, Malásia, Taiwan, Coreia do Sul – apresentaram maior progresso económico e social quando produziram reformas que davam maior liberdade económica e política aos seus cidadãos.

Este livro é recomendável para quem tem interesse em questões de desenvolvimento e direitos individuais. O livro defende as sociedades livres e opõe-se à lógica do líder autocrático que concentra demasiados poderes às expensas das liberdades individuais dos cidadãos que governa.

Easterly defende que a liberdade gera sociedades mais equilibradas politicamente e economicamente mais produtivas uma vez que a criatividade floresce melhor em ambiente livre e, como defendeu Robert Sollow, o progresso tecnológico (inovação) é um factor decisivo no desenvolvimento.

Book Club | Poponomics

Os economistas gostam de acreditar que a ciência económica é versátil. Tão versátil que as técnicas usadas para explicar os fenómenos económicos servem para explicar praticamente qualquer fenómeno social, esta prática que procura tornar a ciência económica acessível para qualquer pessoa foi baptizada de “poponomics” (economia popular). Existem muitos livros que se enquadram na categoria “poponomics” e eis os três que sugiro:

51c9kccu9bl-_sy291_bo1204203200_ql40_“Economia explicada à minha filha” – André Fourçans

André Fourçans é um professor de economia francês, antigo eurodeputado e destacado autor. O livro procura simplificar a ciência económica explicando a sociedade por meio da teoria económica. Com base em conceitos económicos numa escrita divertida o autor vai explicando fenómenos sociais à sua filha, vale a pena ler este pequeno livro que bem poderia servir para introduzir a ciência económica aos outsiders.

“The Armchair Economist – Economics and Everyday Life” – Steven Landsburg

Steven Landsburg é um dos precursores da onda de autores que recorrem à ciência económica para explicar os mais diferentes fenómenos sociais. “The Armchair Economist” foi escrito de forma brilhante por um economista provocador que sabe entreter falando de questões sérias. Da sua lavra foram ainda colhidos os títulos “More Sex Is Safer Sex” e “The Big Questions”, ambos seguem a mesma lógica do “The Armchair Economist” mas nenhum tão notável quanto este. Recentemente Landsburg editou uma versão actualizada do seu best seller.

“Freakonomics” – Steven Levitt e Stephen Dubner

Levitt é um economista criativo que lecciona na Universidade de Chicago. Dubner é um jornalista do New York Timesjuntaram-se e escreveram um dos mais populares livros sobre economia dos últimos anos. A dupla explora de forma brilhante os fenómenos sociais e explica ainda melhor as suas causas e apresenta, por vezes, soluções não menos interessantes.

O livro tornou-se num fenómeno mundial, originando um site, que contém um blogue e um segundo livro – “Super Freakonomics” – que segue a linha do primeiro. Os dois livros são obrigatórios

A África do Sul contra si mesma

SABookHá algum tempo li “A History of South Africa” de Leonard Thompson e fiquei impressionado pela história de sofrimento das comunidades negras da África do Sul desde o momento em que se começaram instalar colonatos europeus no século XVII.

Os povos da África do Sul sempre lutaram contra o regime segregacionista e com as independências africanas na segunda metade do século XX ganharam novos aliados. Os vizinhos independentes da África Austral, em particular Moçambique e Angola, tornaram-se alvos do regime do apartheid. Líderes como Jacob Zuma e Oliver Tambo refugiaram-se em Angola e Moçambique, vários artistas encontraram paz noutros países africanos como Miriam Makeba que viveu na Guiné-Conacry. Este particular período da luta dos sul-africanos, cujo rosto e guia moral foi Nelson Mandela, é que torna as explosões de xenofobia inexplicáveis – em particular para os africanos que são os mais visados da fúria. Jacob Zuma, que viveu na pele a solidariedade do continente nos momentos difíceis, disse que é “inaceitável”, pese o facto do seu filho apoiar a posição do rei zulu, Goodwill Zwelithini, contra a permanência de imigrantes na África do Sul (o rei diz ter sido mal traduzido).

Os episódios de violência xenófoba perpetrados sobretudo por camadas mais pobres não são um fenómeno exclusivamente sul-africano. Historicamente as tensões anti-imigrantes aumentam em períodos de fraco desempenho económico e muitas vezes os estrangeiros servem de bode-expiatório. No caso sul-africano, a postura contra migrantes de outros países, especialmente africanos e asiáticos, não é exclusiva das camadas mais pobres (apesar de serem estas que executam as barbaridades); uma pesquisa da Southern African Migration Project revelou que 90% dos sul-africanos considera que existem imigrantes a mais no seu país e recentemente políticos destacados pronunciaram-se contra o número de estrangeiros no país, como a ministra para o Desenvolvimento de Pequenos Negócios, Lindiwe Zulu que disse que “os estrangeiros têm que perceber que estão aqui por cortesia e a nossa prioridade são as pessoas deste país… (os empresários estrangeiros) não podem barricar-se e escusar-se de partilhar as suas práticas com empresários locais”.

A teoria dos estrangeiros estarem a roubar os empregos dos sul-africanos é contrariada pelos números da organização Migrating Work Consortion, que demonstra que apenas 4% da força de trabalho na África do Sul é estrangeira.

The Migrating for Work Research Consortium (MiWORC), an organisation that examines migration and its impact on the South African labour market, released two studies last year that drew on labour data collected in 2012 by Statistics South Africa.

They found that 82% of the working population aged between 15 and 64 were “non-migrants”, 14% were “domestic migrants” who had moved between provinces in the past five years and just 4% could be classed as “international migrants”. With an official  working population of 33 017 579 people, this means that around 1.2-million of them were international migrants. (link)

O que mais choca África é ver a última fronteira da luta contra o racismo no continente tornar-se num ingrato centro de xenofobia, que, como disse o histórico do ANC Ahmed Kathrada: “xenofobia é racismo”.

Podemos partir para teoria que anos de “separação” do continente num ambiente em que o africano era reduzido a lixo contribuíram para as relações difíceis entre sul-africanos e outros africanos, mas parece que o problema das relações entre povos de África é continental e não apenas de um país. Tenho a impressão (e temo estar certo) que as organizações regionais e continentais em África servem apenas para banquetes periódicos dos líderes enquanto que os cidadãos africanos pouco ou nada  beneficiam das relações institucionais intra-africanas.

O sistema colonial terminou mas a herança continua presente. Tipicamente, os países africanos têm maiores (e por vezes melhores) relações com a antiga potência colonial ou com “irmãos do mesmo colono” (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Brasil, Portugal | Ghana, Nigéria, Uganda, Reino Unido | Benin, Senegal, Mali, França). No caso de Angola, vivem entre nós muitos imigrantes africanos, europeus, americanos e asiáticos e é perfeitamente palpável a diferença das nossas relações pessoais com europeus e com africanos. Nas nossas festas mais facilmente encontramos um amigo francês ou português do que um congolês ou nigeriano eventualmente porque estamos cercados de preconceitos que só poderão ser resolvidos com maior interacção e a cultura pode jogar um papel importante já que é igualmente palpável uma afinidade com as cores e sons de outros países do continente porque nenhum ouvido africano é indiferente ao batuque.

Os sul-africanos estão a atacar os pequenos negócios dos etíopes carregados de concepções erradas. Em Angola é frequente ouvir teorias conspiratórias e de certa forma preconceituosas sobre os “Mamadus” que operam as cantinas. Os sul-africanos hoje discriminam e agridem os moçambicanos que há algumas décadas atrás chegaram-se a frente para combater o apartheid e nós temos hoje uma relação apática com os nossos vizinhos congoleses que outrora acolheram (nem sempre com a hospitalidade devida, é verdade) muitos angolanos.

Apesar de tudo, o batuque é tão familiar a todos nós que o kuduro do Cabo Snoop faz furor no continente inteiro, como faz sucesso o som do congolês Fally Ipupa ou a batida do azonto do Gana e do Afrobeat feito na África do Sul, aliás o Uhuru mais famoso de África não é o presidente do Quénia mas sim o grupo musical sul-africano.

Não bastará os africanos não serem agredidos na África do Sul, é preciso criar espaço para troca de experiências e intercâmbio cultural entre os povos. É preciso entender as razões por detrás do fluxo de migrantes africanos para os países do continente (e não só) que apresentam mais oportunidades, é preciso elucidar as pessoas para os factos para abater falsidades e é preciso tornar a solidariedade africana num conceito abrangente e não apenas num escudo de defesa de lideranças duvidosas.

De todo modo, os problemas económicos da África do Sul não podem apagar a sua história recente e não  podem guiar o país que ambiciona ser a “nação arco-íris” para a falência moral. Depois dos acontecimentos de 2008 torna-se ainda mais inaceitável assistir tanta barbaridade pelas mesmas razões, desta vez é preciso um diálogo franco e abrangente porque uma repetição de tais acontecimentos poderá ser fatal para a reputação da nação.

Assaltos em Luanda e os seguranças

Malcom Gladwell não acredita em coincidências. No seu livro “Outliers: The Story Of Success” o autor aborda as razões por detrás do sucesso de determinados indivíduos ou comunidades em áreas específicas, para o autor as capacidades individuais não se podem separar do contexto. Para Gladwell é possível identificar os passos que determinaram o sucesso dos judeus europeus que emigraram para os Estados Unidos no início do século XX, o fenómeno Beatles, o número anormal de acidentes da Korean Air ou como Bill Gates e Bill Joy se tornaram astros no mundo da informática.

Olhando para os assaltos recentes em Luanda nas imediações e dentro de agências bancárias (e noutros ambientes) o traço comum muitas vezes avançado pela polícia é a participação de seguranças que deveriam precisamente proteger as instalações e indivíduos dos assaltos. No assalto violento recentemente praticado contra uma funcionária da clínica Meditex em Luanda, a polícia mais uma vez avançou com a hipótese de conluio entre os assaltantes e os seguranças. Tal é a frequência destes casos que quase podemos dizer que o segurança é “suspeito por defeito”.

Por ser frequente, a participação de seguranças nos assaltos deve ser vista com profundidade por quem investiga, não apenas na perspectiva da operacionalização do acto, mas sobretudo tentar entender o que leva os seguranças a alinharem tão facilmente com os meliantes. Afinal, como defende Gladwell: não há coincidências.

Olhando para o problema sem grandes números a mão, fico com a impressão que este “desvio” dos seguranças pode ser explicado por dificuldades financeiras. Segurança numa cidade como Luanda é uma profissão de alto risco, contudo a remuneração é baixa, muito baixa. Tão baixa que torna os seguranças em seres facilmente aliciáveis.

Entre arriscar a vida por um salário miserável e arriscar a vida por um bilhete de lotaria a ele vendido como “vencedor”, muitas vezes o segurança vai pela lotaria. A quantidade de seguranças que vai pela lotaria deveria levantar o debate sobre as condições de trabalho a que estão sujeitos estes profissionais porque um pedinte não pode garantir a segurança patrimonial de ninguém.

Título: “Outliers: The Story Of Success | Autor: Malcom Gladwell

Book Club | “The Frackers – The Outrageous Inside Story of the New Billionaire Wildcatters”

the frackersGregory Zuckerman é um daqueles autores com um talento especial para escrever a história como se de um romance se tratasse, o autor de “The Greatest Trade Ever”, livro que descreve a elaboração e execução da estratégia de John Paulson e seus colaboradores na maior transacção de sempre que tirou proveito do colapso do mercado imobiliário dos Estados Unidos, abraçou em “The Frackers” a história dos pioneiros da exploração de petróleo e gás para lá das rochas de xisto. Em boa verdade, o homem sabe há muitos anos da existência de hidrocarbonetos em “armadilhas” de rochas (o nome “petróleo” significa “óleo da pedra”) mas a insistência de um grupo de empreendedores americanos foi o primeiro capaz de explorar com sucesso comercial as riquezas abaixo das camadas de xisto.

“The Frackers” começa por contar a história de George Mitchell cuja empresa foi pioneira a usar a tecnologia de fracturação hidráulica das rochas (hydraulic fracturing) para exploração de gás na formação rochosa do Barnett no norte do Texas. A persistência de mais de uma década de Mitchell no aperfeiçoamento da tecnologia permitiu a revolução energética mais recente nos Estados Unidos com efeitos em todo o mundo.

Gregory Zuckerman não foca a sua narrativa apenas na tecnologia e nos efeitos económicos da revolução do shale gas mas também na personalidade das pessoas que levaram a cabo a revolução como Aubry McCLendon e Tom Ward da Chesapeake Energy; Harold Hamm da Continental Resources que protagonizou mais tarde o divórcio mais caro da história dos divórcios dos Estados Unidos; o imigrante libanês Charif Souki que abandonou o negócio da restauração para lançar-se num terminal de importação de LNG que com a abundância de produção americana foi convertido em terminal de exportação de LNG; Mark Papa que transformou a EOG Resources (antiga filial da falida Enron) num operador de referência depois de ter mantido em segredo o que tinham descoberto na formação rochosa de Eagle Ford no sul do Texas e Robert Hauptfuhrer da Oryx Energy.

O livro conta a história dos últimos 20 anos de exploração de petróleo e gás nos Estados Unidos que foram marcados por maior investimento da produção no exterior por parte das grandes empresas, uma vez que existiam várias restrições locais para aumento das zonas de exploração no offshore. Neste contexto, as empresas menores decidiram apostar em formas alternativas de aceder às riquezas no subsolo arriscando milhares de dólares em experiências tecnológicas que acabaram por revelar-se revolucionárias. As grandes empresas perderam corrida e tiveram que recorrer mais tarde às aquisições para terem acesso ao bolo do xisto cujo aumento da produção afectou a oferta mundial e ajuda a explicar a actual depressão do preço do petróleo que tem provocado grandes constipações deste lado do globo.

“The Frackers” é a todos níveis um livro obrigatório para quem quer familiarizar-se com o que está por trás da exploração de petróleo e gás em formações rochosas mas também ajuda-nos a perceber porquê que certas revoluções tecnológicas acontecem sobretudo nos Estados Unidos. Os americanos ao longo da sua história parecem ter conseguido criar o ecossistema perfeito para empreendedores, onde as grandes ideias encontram os financiadores, técnicos e protecção judicial para as suas arriscadas apostas no desconhecido.

Título: “The Frackers The Outrageous Inside Story of the New Billionaire Wildcatters” | Autor: Gregory Zuckerman

Book Club | “Why Nations Fail – The Origins of Power, Prosperity, And Poverty”

Existem muitas teorias sobre o subdesenvolvimento dos países como a geografia ou a cultura de um determinado povo mas Daron Acemoglu e James Robinson (dois dos mais respeitados académicos na área da economia do desenvolvimento) resumem o sucesso e o insucesso das nações à qualidade das suas instituições. Ao longo do livro”Why Nations Fail” (“Porque Falham as Nações” na versão portuguesa) Acemoglu e Robinson demonstram que os países que criaram instituições inclusivas e que incentivam a liberdade de criação são mais inovadores, mais produtivos e mais desenvolvidos do que aqueles que assentam em instituições “extractivas”, ou seja, os países em que as instituições políticas e económicas são desenhadas para servir os interesses políticos e económicos de um grupo de pessoas às expensas do resto da sociedade, estes países podem até experimentar períodos de crescimento económico acelerado mas por norma este crescimento é desequilibrado e insustentável, conduzindo as sociedades a instabilidade económica e social.

O livro tem um tamanho que intimida (544 páginas na versão original) mas foi tão bem escrito que devora-se num instante mesmo por aqueles que não têm conhecimento profundo sobre economia. O livro começa por apresentar a situação económica de duas cidades vizinhas e homónimas, uma no México e outra nos Estados Unidos, com pessoas da mesma etnia e no mesmo espaço geográfico cujo presente foi moldado ao longo dos anos por contextos diferentes, uma gozava de instituições inclusivas (Nogales, Arizona – EUA) e outra vivia num país sequestrado por um conjunto de práticas extractivas (Nogales, Sonora – México). A cidade dos Estados Unidos apresenta um nível de desenvolvimento muito acima da vizinha mexicana simplesmente porque a organização sócio-económica é regida por instituições inclusivas.

O conteúdo de “Why Nations Fail” (“Porque Falham as Nações” na versão portuguesa) é de tal forma informativo e formativo que eu sugiro a oferta de uma cópia a cada deputado da nossa Assembleia Nacional, pelo menos seria mais barato e mais útil do que a distribuição de carros de luxo que os nossos ilustres representantes usam para “negociar” com o trânsito e buracos das estradas subdesenvolvidas de Luanda.

Título: “Why Nations Fail – The Origins of Power, Prosperity, And Poverty” ou “Porque Falham as Nações: A Origem do Poder, da Prosperidade e da Pobreza”  | Autores: Daron Acemoglu e James Robinson