O CAN tem mesmo que ser em Janeiro?

cvmrtriwyaafske

A principal competição de selecções do futebol africano, CAN, começa no próximo dia 14 de Janeiro no Gabão e para muitos jogadores isto é um problema. É um problema porque as principais estrelas do futebol africano jogam profissionalmente em campeonatos europeus onde os meses de Janeiro e Fevereiro são muito importantes para a definição das posições em que acabam as equipas no final de Maio.

O Liverpool perdeu para a selecção do Senegal Sadio Mané que é das suas principais forças ofensivas esta temporada (9 golos em 21 jogos) que vai falhar pelo menos 7 jogos (2 da taça da liga, 1 da taça da Inglaterra e 4 da liga inglesa) se o Senegal jogar a final no dia 5 de Fevereiro em Libreville. A vontade de defender as cores da selecção, que tem protecção das regras da FIFA, muitas vezes choca com os interesses dos clubes e dos atletas que podem ver a sua carreira prejudicada por uma ausência forçada para participar no CAN, como aconteceu com o Djalma Campos que após ter ido ao CAN representar Angola perdeu o lugar no onze do Porto e nunca mais o recuperou e foi transferido para Turquia onde representou clubes sem grande expressão.

O também jogador do Liverpool Jöel Matip está neste momento no centro de um diferendo entre a selecção dos Camarões e o seu clube porque aparentemente não quer representar a selecção no CAN do Gabão e o clube alega que o jogador de 25 anos já abandonou o futebol internacional, o que torna sem efeito as obrigações impostas pela FIFA. Isto não seria um problema se o calendário do futebol internacional fosse minimamente harmonizado como acontece com o basquetebol, que apesar de ter uma expressão internacional manifestamente menor é a segunda modalidade mais popular no mundo.

Transformar o sistema FIFA no sistema FIBA é de todo impossível, uma vez que as confederações continentais de futebol actuam num quadro muito mais independente do que as suas congéneres do basquetebol, mas não parece irrealizável harmonizar o calendário dos campeonatos nacionais de forma a evitar choques entre a progressão normal das ligas e as competições de selecções. Por exemplo, no basquetebol sénior internacional, as ligas nacionais estão alinhadas com o calendário da FIBA que permite a realização de competições de selecções sem interferência com as ligas nacionais, seja esta o BIC Basket ou a NBA enquanto que no futebol um jogador africano ou asiático pode pôr em risco a sua carreira num clube europeu por representar a sua selecção num campeonato continental que decorre em Janeiro.

A solução mais simples passaria por harmonizar os campeonatos nacionais de clubes em África e nas Américas com as ligas da Europa, fazendo assim coincidir as pré-épocas e o grosso dos campeonatos nacionais, deixando parte dos dias reservados às férias dos atletas para a organização periódica de competições de selecções a nível continental e mundial. Passando o CAN para a segunda quinzena de Junho em cada dois anos (eu preferia que fossem quatro) a CAF evitaria a tensão entre clubes europeus e atletas africanos que se repete nesta altura e, em muitos casos, com consequências negativas para a carreira dos atletas. Ademais, e provavelmente o maior ganho de tal mudança, realizar o CAN entre Junho e Julho tem o potencial de aumentar a exposição da competição, uma vez que com menos competições em curso (nomeadamente ligas europeias) mais tempo de antena teria o futebol africano com reflexos a nível comercial.

Anúncios

Girabola Zap. Porcelana pode ser o primeiro de muitos a afundar

Há algum tempo escrevi aqui sobre a dependência financeira do desporto angolano em relação ao sector público. Este facto colocava o nosso desporto na linha da frente das potenciais vítimas da crise económica.

O Girabola entretanto conseguiu um patrocinador privado que segundo o Jornal dos Desportos (JD) paga USD 5 milhões por ano à Federação Angolana de Futebol (FAF). O contrato com a Zap deu um sobrenome ao Gira que passou a chamar-se Girabola Zap e é válido por cinco anos. A empresa distribuidora de televisão por subscrição e Internet ficou com o direito de transmissão dos jogos do campeonato num canal fechado e prometeu (e cumpriu) melhorar a qualidade das transmissões.

Segundo o JD a FAF irá abocanhar USD 1 milhão para si e distribuirá USD 4 milhões pelos clubes, sendo que USD 1,5 milhões estão reservados para o campeão e os restantes USD 2,5 milhões servem para pagar os direitos de transmissão televisiva a cada um dos dezasseis clubes que disputam a prova.

zap

Na notícia do JD o autor especulou que os USD 5 milhões representariam a tábua de salvação dos clubes mas não poderia estar mais enganado. No dia 29 de Maio na voz da sua presidente da messa da Assembleia Geral, Joana Lina, o Porcelana Futebol Clube do Kwanza Norte anunciou o abandono do campeonato por não ter condições financeiras para continuar a prova. Admitindo uma distribuição equitativa dos USD 2,5 milhões (que poderá não é o caso) o Porcelana receberia da FAF (via Zap) cerca de 156 mil dólares este ano que seriam provavelmente a maior receita do clube. Segundo Joana Lina, o clube acumula dívidas com colaboradores (três meses sem pagar salários aos jogadores) e com fornecedores, entre eles a própria FAF.

A direcção do Porcelana falou em dívidas mas nãos dimensionou, aliás o nosso desporto não goza de boas relações com a transparência e os orçamentos dos clubes são, regra geral, “segredo de estado”. Aferir a gravidade da situação financeira dos nossos clubes e as suas necessidades é um exercício especulativo. A FAF supostamente exigiu aos clubes a apresentação das suas responsabilidades contratuais mas não é do conhecimento público que esta informação tenha sido disponibilizada.

O que se sabe é que o Girabola Zap é competição nacional melhor distribuída geograficamente com a participação de 8 das 18 províncias e num país com custos de transporte proibitivos a “aventura” de participar no Gira pode sair cara.

Regra geral os custos com salários dominam os orçamentos dos clubes, mas neste deserto de informação que é o nosso desporto é difícil aferir. Contudo, segundo uma reportagem de 2013 (no bom tempo) do jornal Agora o Kabuscorp gastava cerca de 133 mil dólares em prémios por cada vitória, sendo que à cada jogador cabiam 5 mil dólares e ao treinador 7,5 mil dólares. Segundo a mesma reportagem o Recreativo do Libolo gastava 128 mil dólares e o Petro de Luanda cerca de 120 mil dólares em prémios por cada vitória, no Primeiro D’Agosto os prémios variavam entre 75 e 100 mil dólares.

Os prémios hoje provavelmente já não são tão expressivos mas é possível perceber que os valores investidos no nosso campeonato não geram retorno, nem em termos da qualidade dos jogos nem em termos financeiros. Os valores vindos do contrato com a Zap são uma gota no oceano de despesas dos clubes e estes precisam de fazer mais para gerar receitas e num momento em que os potenciais patrocinadores vivem também dificuldades o desafio é ainda maior.

O modelo de patrocínio colectivo, como é o caso da Zap, pode ser o melhor caminho neste período de arrefecimento económico. Os clubes e a FAF (que organiza a prova) deveriam apostar em alargar o leque de patrocinadores do campeonato aumentando assim o bolo a distribuir entre todos, sem prejuízo dos clubes aumentarem os esforços na busca de modelos de financiamento para a sua operação, quer sejam sócios ou patrocinadores.

O que reserva o futuro próximo para o basquetebol angolano

l78svad4fek1rvw-ivz3wg

Selecção de Angola no Campeonato Mundial sub-17 da FIBA – Dubai 2014 (Fonte: Fiba)

O presidente da Federação Angolana de Basquetebol (FAB), Paulo Madeira, disse recentemente ao Jornal dos Desportos que está preocupado com o futuro do basquetebol nacional, sobretudo, porque tem encontrado dificuldades em financiar as actividades das equipas de base e pelo emagrecimento do campeonato nacional sénior feminino, que passa a ter apenas três equipas piorando ainda mais a sua minúscula dimensão.

O consulado de Paulo Madeira a frente da FAB fica marcado por momentos de esperança como a vitória no Afrobasket sub-16 e presença no mundial sub-17 da equipa orientada por Manuel Silva e momentos alarmantes como a perda dos títulos africanos em sénior masculino e feminino que deixa a equipa feminina afastada dos Jogos Olímpicos 2016 e obriga a equipa masculina à lutar por uma vaga dificílima num torneio pré-olímpico.

Para 2016 e  para o futuro próximo, como na generalidade da vida social em Angola, o basquetebol enfrentará sérias dificuldades financeiras que poderão afectar os clubes e, consequentemente, o desempenho das selecções nacionais.

O início da presente época do BIC Basket tem sido marcado pela ausência de alguns jogadores estrangeiros por razões desconhecidas e antes mesmo de começar a competição o Sporting do Bié anunciou a desistência do campeonato por incapacidade financeira. No campeonato sénior feminino a quarta equipa abandonou a competição por dificuldades financeiras e o campeonato nacional passou a ter apenas três equipas. Recentemente nos campeonatos nacionais sub-16, oito equipas desistiram por problemas financeiros (4  em feminino e 4 em masculino) e a nível das selecções jovens faltam fundos para cumprir os objectivos traçados pela FAB segundo Paulo Madeira.

temos uma preocupação, principalmente a nível das selecções de formação, que são as que têm mais dificuldades em trabalhar. Temos de continuar à procura de apoios e de patrocinadores para que possamos gerir os centros especiais de treinos.

Paulo Madeira

Pese o papel de representação global da modalidade da FAB, os principais agentes do basquetebol são os clubes, quer seja na formação como no basquetebol profissional e os clubes vão estar curtos de fundos para levar a cabo os seus programas de formação e esta é a maior ameaça ao futuro do basquetebol em Angola.

O nosso desporto no geral é muito dependente de fundos públicos e esta dependência fez com que o potencial de realização de receitas próprias fosse negligenciado durante anos. Os nossos clubes e federações precisam de organizar melhor as competições e transformar o desporto num produto de entretenimento e num palco para o desfile de marcas, criando uma plataforma com benefícios mútuos. Com as empresas e famílias mais pobres atrair patrocinadores e pagantes é cada vez mais desafiante, mas não há alternativas a este caminho. O modelo de dependência pública não é sustentável e os nossos objectivos e aspirações exigem formação de qualidade e uma liga competitiva, tudo isto precisa de dinheiro.

No passado, com um grupo reduzido de atletas e de equipas profissionais a selecção angolana de basquetebol masculina contruiu um palmarés impressionante a nível continental mas os anos de domínio inquestionável da nossa selecção parecem estar no fim. Não é expectável que Angola desapareça dos lugares cimeiros nos próximos anos mas ganhar títulos vai ser cada vez mais difícil uma vez que vão emergindo cada vez mais selecções capazes de nos causar problemas, quer sejam suportadas por boas competições internas (como a Tunísia e o Egipto) ou com recurso à atletas da diáspora (como Nigéria, Senegal e Camarões).

O basquetebol feminino enfrenta um futuro cheio de incertezas, com o emagrecimento da principal liga e com o número reduzido de atletas em formação a selecção poderá ver-se afastada dos lugares de topo a nível de África e, consequentemente longe das competições internacionais.

Para o basquetebol masculino, apesar das questões a volta do modelo de financiamento e da organização dos clubes e da federação, tenho melhores expectativas para o futuro próximo. O talento desportivo existe, como demonstra o recente sucesso das selecções de base e o potencial de alguns atletas jovens que já actuam como profissionais e outros que militam ainda na formação, mas o talento é um bicho que come muito, se passar fome jamais atingirá o seu potencial.

Angola tem um grupo de atletas nascidos entre 1990 e 1998 (Grupo 90-98) que nos permitem antever a construção de uma selecção forte. Este grupo poderá contar ainda com alguns jogadores mais experientes nos próximos anos, nomeadamente Carlos Morais, Leonel Paulo e Felizardo Ambrósio. O Grupo 90-98 inclui atletas como Yanick Moreira, Valdelício Joaquim, Bráulio Morais, Gildo Santos, Edson Ndoniema, Jone Pedro, Islando Manuel, Pedro Bastos, Joaquim Pedro, Gerson “Lukeny” Gonçalves, Teotónio Dó e Malik Cissé. Numa segunda linha aparecem jovens como Avelino Dó, Valdir Victoriano, João Jungo, Rifen Miguel, Eric Amândio, Bruno Fernando e Sílvio Sousa.

Sílvio Sousa e Bruno Fernando são hoje as maiores esperanças para que dentro de anos (2/3) seja quebrado o enguiço da presença angolana na NBA. Os antigos atletas do Primeiro d’Agosto são actualmente destaque na Montverde Academy na Florida, a academia tem um dos melhores programas de basquetebol do ensino secundário dos Estados Unidos e de lá saíram recentemente D’Angelo Russell (LA Lakers) e Ben Simmons ainda no campeonato universitário da NCAA (LSU). Bruno Fernando termina o secundário este ano e é considerado o 68.º melhor jogador da classe de 2016 dos Estados Unidos pela ESPN que considera Sílvio Sousa o 2.º melhor jogador da classe de 2018. Também na Florida (West Oak Academy) estão Eric Amândio e Rifen Miguel, ambos jogadores das selecções de base sendo que o primeiro é um base promissor da formação do Petro de Luanda e o segundo vem do Benfica de Lisboa.

Mas como o basquetebol não se resume ao talento disponível para formar uma selecção sénior masculina forte, é preciso ter atenção com todas as maleitas que limitam o aproveitamento do talento que temos a disposição. Penso que já é tempo do nosso basquete cultivar uma relação mais próxima com os Estadso Unidos em detrimento das relações com a escola europeia, sobretudo a nível da formação de treinadores. Temos que encontrar forma de dar mais horas de prática aos atletas da base e fazer chegar a modalidade com alguma significância à mais províncias. É urgente buscar novas soluções de financiamento (patrocinadores, mechandising, negociação de direitos, etc.) que nos permitam desenhar um futuro menos dependente do financiamento público.

Para já, esperar que se resolvam as makas de organização e que os nossos atletas tenham todo o sucesso do mundo.

Os motores da Formula 1, o carro eléctrico e o futuro do petróleo

mercedesf1engine

Em 2014 a Formula 1 (F1) deixou de usar os motores 2.4 L V8 naturalmente aspirados e passou a usar propulsão híbrida com unidades de potência (power units) compostas por um motor a gasolina 1.6 L V6 Turbo e por duas unidades eléctricas alimentadas pela energia gerada pelo próprio carro. Esta mudança gerou alguma polémica porque a F1 perdeu o som raivoso dos motores e os carros passaram a ser mais lentos (neste caso não só pelo motor, mas também pelos pneus e limitação regulamentar do fluxo de combustível). Contudo, estas mudanças foram exigidas pelos construtores de motores – nomeadamente a Renault – anos antes, para que a categoria estivesse alinhada com o caminho que a indústria de automóveis estava a seguir: motores híbridos que permitem reduzir o consumo de combustível, sem que isto implique perca de performance. Com esta mudança de paradigma a F1 de 2015 consome menos 35% de gasolina que em 2013.

Eu tive o prazer de ouvir o inquietante roncar dos motores V8 na F1 que é de facto mais impressionante que o som expelido pela propulsão V6 Turbo Híbrida, mas a nova configuração é o futuro e antes de ser usada na F1 já estava nas estradas e os construtores pretendem usar a F1 como laboratório para desenvolver ainda mais a tecnologia que nas estradas já não se resume aos pequeno-citadinos uma vez que os três super desportivos de série mais espectaculares lançados nos últimos tempos são três híbridos que usam uma tecnologia semelhante a da Formula 1: (i) McLaren P1, (ii) Porsche 918 Spyder, e (iii) Ferrari LaFerrari.

Segundo a Llewellyn Consulting citada por um colunista do The Guardian, se o mundo adoptasse a tecnologia da F1 poderia poupar cerca de 2% ou mais em consumo de petróleo bruto por ano, adicionando mais uma questão a sustentabilidade da procura de petróleo no longo prazo, sobretudo porque o sector automóvel, um dos maiores consumidores de combustíveis, não se quer ficar pelos carros híbridos e avança decididamente para adopção do carro eléctrico. A Tesla sediada nos Estados Unidos terá a companhia de outras marcas de luxo na produção de carros eléctricos em breve: a BMW anunciou que vai converter toda sua gama para carros eléctricos e híbridos no futuro próximo enquanto que a Porsche apresentou no salão automóvel de Frankfurt o protótipo Mission E, uma espécie de Porsche Panamera eléctrico que recorreu à tecnologia que a marca alemã usou no protótipo 919 Hybrid LMP1 (construído para disputar o World Endurance Championship (WEC) também conhecido por Le Mans series) e que poderá estar nas estradas no final desta década.

A Federação Internacional do Automobilismo (FIA) que organiza os campeonatos da F1 e WEC onde abundam vários híbridos produzidos por grandes construtores (como Porsche, Audi, Peugeot, Toyota e Nissan) lançou a Formula E, uma espécie de Formula 1 de carros eléctricos que foi recebida na sua época de estreia com algum entusiasmo pela indústria, adeptos e patrocinadores, atraindo vários ex-pilotos da F1.

Apesar do entusiasmo de alguns sobre o futuro do automóvel e como isto poderá impactar a procura do petróleo, no momento as vendas de carros eléctricos e híbridos ainda não conseguiram ganhar tracção; nos Estados Unidos os carros eléctricos vendidos no final de 2014 eram cerca de 200 mil, muito abaixo do um milhão que antecipava Barack Obama – na altura senador – em 2006 sendo que a empresa Navigat prevê que só em 2025 a frota de carros eléctricos nos Estados Unidos atingirá um milhão.

Se aposta da Google (ou Alphabet) no “carro auto-dirigido” gerou mais curiosidade do que interesse generalizado da indústria automóvel, a mudança de estratégia da BMW está a ser recebida com alguma apreensão pois poderá trazer consigo outras grandes marcas para a festa dos eléctricos e híbridos e pressionar a procura de petróleo cujo preço, dentre outros factores, já está a ser afectado pelo aumento da produção global. Sendo assim, não é disparatado esperar que dentro de 15 anos a configuração do motor dos nossos carro exija menos combustível e que a procura global pelo ouro negro deixe de crescer ao ritmo da última década.

Procura de petróleo cujo preço, dentre outros factores, já está a ser afectado pelo aumento da produção global. Sendo assim, não é disparatado esperar que dentro de 15 anos a configuração do motor do nosso carro exija menos combustível e que a procura global pelo ouro negro deixe de crescer ao ritmo dos últimos anos.

Petro vs D’Agosto: casa meia cheia e nenhum anúncio visível

No passado sábado, 12 de Setembro, jogaram no estádio 11 de Novembro Petro de Luanda e D’Agosto para a segunda volta do Girabola 2015, pese o facto do Petro estar completamente afastado da discussão do título e do D’Agosto estar com poucas hipóteses de lá chegar dentro da qualidade habitual do nosso campeonato o jogo foi bom. Contudo, o estádio apresentava apenas um anel cheio a meio da segunda parte ficando o anel superior às moscas: o maior clássico do futebol angolano não consegue encher as bancadas do maior estádio do país.

Se ter cerca de 20 mil pessoas num Petro vs. D’Agosto é insatisfatório, ver um estádio despido de anúncios publicitários num jogo destes é preocupante. O desporto angolano tem de libertar-se da dependência do estado imediatamente e buscar a realização do seu potencial, em particular os clubes mais tradicionais como o Petro e o D’Agosto. O mínimo que se pode exigir ao dono da casa, no caso o Petro de Luanda, é cobrir o estádio com as marcas dos seus patrocinadores já que não conseguem vender espaços para potenciais anunciantes. Um estádio despido de publicidade naquele que é o maior clássico do nosso futebol é o cúmulo da incompetência comercial.

Se olharmos para a publicação da Deloitte (Football Money League) que lista os clubes de futebol que geram mais receitas época após época nota-se que os três principais meios de receitas são: (i) comercial (sponsorship/merchandising) (ii) direitos televisivos e (iii) bilheteira por esta ordem, uma vez que a Deloitte exclui as receitas com vendas de jogadores. Olhando para o nosso derby fica claro que as receitas com bilheteiras estão abaixo do desejado e que os clubes precisam de investir no produto para conseguirem melhores contratos de transmissão televisiva e para levarem mais gente aos estádios.

Quando marcou o primeiro golo do jogo o avançado do D’Agosto Ary Papel imitou um gesto de Cristiano Ronaldo que é uma máquina de fazer dinheiro, se calhar o D’Agosto e os seus parceiros deveriam imitar o Real Madrid na promoção das suas principais estrelas e assim melhorar a sua atractividade para potenciais anunciantes. Apesar das insuficiências, o D’Agosto até é dos clubes mais activos em termos de marketing mas ainda assim alguém lembrou-se de usar equipamentos da desconhecida marca “Stadio”. Se o clube pretende aumentar as receitas com a venda de camisolas tem que arranjar um fornecedor de equipamento melhor, investir no design e em mais pontos de venda ou expandir a distribuição por via de parceiros porque a loja do Rio Seco não chega.

Pessoalmente, penso que o preço cobrado para assistir um jogo de futebol em Angola é acessível (varia entre 500 e 1000 kwanzas) mas as clareiras dos estádios indicam que falha alguma coisa. Desconfio que a maka reside na fraca promoção dos eventos e na qualidade do “produto” que goza de má reputação (se calhar com razão). Atendendo o facto da vida financeira dos clubes estar cada vez mais difícil por dificuldades financeiras de alguns patrocinadores que não encontram retorno nas suas parcerias com os clubes, é urgente apostar na organização e na qualidade dos jogos e com isto vender melhor o produto para a televisão e para os adeptos.

Não é realista que um clube angolano venda sequer 5% do que vende o Real Madrid em bilheteiras, mas será que vender 1% dos 113,8 milhões de euros que as bilheteiras do Real Madrid arrecadaram para o clube na temporada 2013/2014 são assim tão irrealistas para um Petro ou 1.º D’Agosto?

Merchandising no basquetebol

fonte: FIBA

O Petro de Luanda e o Recreativo do Libolo estão disputar as finais do BIC Basket numa série a melhor de sete jogos. Em termos de exibição as duas equipas têm apresentado bons momentos de basquetebol mas as arbitragens têm sido muito más (sobretudo no três primeiros jogos), ao ponto que motivaram a ira (e arruaça) dos adeptos do Petro de Luanda que acusam os árbitros de parcialidade.

Se os árbitros continuarem a ser protagonistas das finais pelo pior, quem perde é a modalidade. O jogo precisa de ser limpo para que os adeptos tenham interesse em associar-se a ele e para que os patrocinadores juntem o seu nome ao jogo.

Num situação normal as marcas não querem fazer parte de um jogo em que os erros sistemáticos dos árbitros e a violência dos adeptos passam impunes. Um jogo popular, limpo, bem organizado e com estrelas que o representam deve ser um produto apetecível para os meios de comunicação, fornecedores de equipamentos e produtos desportivos e outros agentes económicos.

Enquanto decorre a nossa final, nos Estados Unidos, os californianos Golden State Warriors e os Cleveland Cavaliers do Ohio lutam pelo título da NBA, que esta semana anunciou um contrato com a Nike, que a partir da época 2017/2018 substitui a Adidas como fornecedor exclusivo de equipamentos da NBA, WNBA e NBA D-League. Os termos financeiros não foram revelados mas diz-se o que o contrato valerá para liga, no mínimo, mil milhões de dólares durante 8 anos, sem considerar as compensações individuais das equipas.

A Nike, que também fornece equipamentos à Federação Angolana de Basquetebol, é a principal marca do mundo do basquetebol muito pela constelação de atletas que reúne na sua “família”. A Adidas nunca conseguiu suplantar a marca americana apesar da longa relação que mantém com a NBA, pelo contrário, a aposta nas estrelas só tem vindo a aumentar a quota da Nike que só com os ténis de assinatura de LeBron James vendeu $340 milhões em 2014. A presença global da Nike no mundo do basquetebol começou a ganhar tracção com a associação da marca a Michael Jordan que com a Nike partilha a Jordan Brand. As duas marcas – Nike e Jordan Brand – têm uma quota de 95% do mercado de ténis de basquetebol que vale $4,2 mil milhões nos Estados Unidos (a Jordan Brand tem 58% de quota e vendeu $2,6 mil milhões entre janeiro de 2014 e janeiro de 2015).

Entre nós, pese o interesse dos angolanos pelo basquetebol, encontrar material de merchadising das equipas que participam no BIC Basket e da selecção nacional é uma raridade. Sempre achei curioso o facto da camisola de Carlos Morais mais vista em Luanda ser dos Toronto Raptors e não do Petro, Libolo ou selecção nacional. Até onde sei, se quisesse comprar hoje uma camisola da Nike da selecção de Angola de basquetebol não encontraria a venda em Luanda. Nunca percebi o porquê da inexistência de material oficial das equipas angolanas de basquetebol nas lojas (excluo aqui as lojas oficiais) quando abundam nas ruas das principais cidades de Angola as cores de clubes e selecções estrangeiras.

Não tendo qualquer estudo que suporte a minha posição, penso que o potencial comercial de alguns jogadores está a ser subaproveitado pelos clubes e pela federação e, como se pode observar no caso de Jordan, as estrelas do passado podem igualmente ser aproveitadas como, por exemplo, Jean Jacques da Conceição, José Carlos Guimarães, Necas, Paulo Macedo, Víctor de Carvalho, Miguel Lutonda, etc.

No caso da federação, seria proveitoso retirar mais da relação com a Nike sobretudo a nível da sua capacidade de comunicação com o mercado. Para os clubes, existe espaço para melhorar o design dos equipamentos, o modelo de comunicação e presença no retalho. A elaboração de uma estratégia de comunicação pode ser cara e a solução poderia passar pelo desenho de uma estratégia conjunta para a modalidade/liga em que os custos fossem partilhados entre os diferentes agentes.

Os agentes desportivos angolanos não podem continuar a dar-se ao luxo de depender excessivamente dos seus patrocinadores enquanto ignoram as oportunidades que a demografia lhes oferece, quem sabe este momento de maior aperto financeiro seja o empurrão que faltava para que os méritos do merchandising sejam abordados de outra forma no nosso basquetebol.

NBA em África e Angola

fonte: NBA

A NBA é das ligas desportivas profissionais mais populares do mundo. As principais estrelas da liga que junta vinte e nove equipas dos Estados Unidos e uma do Canadá são familiares para a generalidade das pessoas que acompanham desporto no mundo. A liga americana anunciou que vai realizar pela primeira vez um jogo em África e não será na terra da selecção multi-campeã africana em selecções masculina e feminina de diferentes categorias e clubes masculinos e femininos, o jogo será na África do Sul.

Angola ambiciona ser uma potência continental nos domínios político, económico, cultural e desportivo e – no âmbito do desporto – este objectivo já foi alcançado há muitos anos no basquetebol. O domínio do basquetebol é explicado pelo trabalho feito há muitos anos por indivíduos e instituições ligadas ao basquetebol, pela popularidade da modalidade no país e pela liga que, apesar das limitações e insuficiências, produz o basquetebol mais competitivo (e competente) no continente, facto que pode ajudar a explicar o número reduzido de basquetebolistas angolanos lá fora uma vez que é possível fazer uma carreira bem remunerada em casa. Com efeito, nunca um atleta angolano disputou um único jogo da época regular da NBA (Carlos Morais foi o que esteve mais perto) e com a melhoria das condições (sobretudo a nível financeiro para os atletas) cada vez há menos angolanos a jogar profissionalmente na Europa.

Contudo, Angola parece padecer de um “síndrome de VIP”, ou seja, “sou demasiado importante para ir ter contigo, venha tu ter comigo”. Esta atitude é transversal na forma em que fazemos política, quer seja económica ou desportiva. Somos muito fechados e pouco pro-activos, gostamos de ser paparicados e do beija-mão porque a humildade (ou será realidade?) não combina connosco.

As relações internacionais do basquetebol angolano continuam muito centradas na Europa, os intercâmbios oficiais com a sede da modalidade, os Estados Unidos, continuam a ser invisíveis apesar de estarmos numa posição privilegiada, uma vez que a modalidade goza entre nós de uma popularidade inigualável em África. Temos hoje clubes que suportam atletas em idade escolar nos Estados Unidos (Petro e D’Agosto) mas falta um envolvimento maior da federação e que esta relação não se limite a enviar jogadores jovens para os Estados Unidos, é preciso envolver treinadores de um lado e do outro e aprender com os melhores a forma de organizar o espectáculo e gerir os activos. Uma relação mais intensa com o mundo do basquetebol americano seria um empurrão para que o nosso jogo desse o próximo passo: ser mais competitivo nos mundiais e torneios olímpicos.

Luanda é a capital do basquetebol africano, a cidade com mais clubes campeões no continente (masculino e feminino), sede da federação mais ganhadora de África e onde mais gente pratica a modalidade nas ruas. Contudo não é aqui que estão os escritórios da NBA África, que efectivamente já organizou eventos em Angola a partir dos seus escritórios em Joanesburgo, na África do Sul.

Com maior pro-actividade poderíamos intensificar o intercâmbio com a federação americana (USA Basketball) e com a NBA e estaríamos posicionados para sermos considerados para um jogo semelhante ao que se realizará em Joanesburgo, a terra do rugby e do futebol, onde o principal pavilhão serve sobretudo como casa de eventos culturais. No primeiro dia de Agosto opõem-se em Joanesburgo o Team Africa capitaneado pelo sul-sudanês naturalizado britânico Luol Deng (Miami Heat) e o Team World capitaneado por Chris Paul (Los Angeles Clippers) na Ellis Park Arena que tem uma lotação de cerca de 6.300 pessoas.

A NBA sentiu-se atraída pela África do Sul pelas condições que o país oferece, apesar da fraca popularidade da modalidade na África do Sul a capacidade económica e nível de desenvolvimento do país acabam por falar mais alto do que, por exemplo, a nossa história no basquetebol que é um activo que poderia ser melhor aproveitado. Com melhor diplomacia este jogo poderia ser no raramente utilizado Pavilhão Multiusos do Kilamba perante 12.750 pessoas em oposição de 6.300 da Ellis Park Arena.

Temos que valorizar o que o nosso basquetebol conquistou mas é preciso sermos humildes e empreender mais esforços na construção de uma relação frutuosa com a maior organização do mundo do basquetebol: a NBA (não, não é a FIBA). E se eles (NBA) “insistem” em não tomar iniciativa, que sejamos nós a tomar.

Desporto em Angola: estado-dependente e pouco atractivo (Girabola e BIC Basket)

Ao contrário de muita gente eu sou daqueles que pensa que os atletas ainda são o melhor do desporto angolano, é verdade que a selecção nacional de futebol põe esta minha convicção em causa muitas vezes, mas para mim o problema maior do nosso desporto reside na gestão deficiente das instituições desportivas em Angola, quer as instituições reitoras quer os clubes. Uma das falhas visíveis das nossas federações e dos nossos clubes é a sua incapacidade de atrair patrocinadores privados para financiar as suas actividades e projectos o que torna o nosso desporto dependente do sector público, quer seja a administração pública via ministérios ou as empresas de domínio público.

A situação já foi pior, nas principais competições nacionais – o Girabola e o agora BIC Basket – já é possível vislumbrar muitos logótipos de entidades privadas mas há mais por fazer porque o potencial está longe de ser esgotado. Melhor organização, pessoal melhor formado e maior espírito de sustentabilidade podem gerar resultados no curto prazo.

No mundo moderno, os patrocinadores procuram ser sobretudo parceiros, buscam ser parte de uma associação benéfica para ambas as partes, nesta relação o clube recebe os fundos que serão utilizados na sua actividade corrente ou investimentos e o patrocinador ganha exposição para sua marca e aí reside o maior problema; não conseguimos transformar os nossos eventos desportivos em produtos suficientemente apelativos e não temos uma organização de eventos que prime pelo conforto e segurança dos adeptos e que valorize o papel da comunicação social, em particular da televisão. Com melhor espectáculo, melhores arbitragens, melhores recintos e maior segurança o produto melhora e a cobertura mediática melhora em seguida. Um bom produto nos jornais, rádios e, sobretudo, televisão torna-se rapidamente num íman para os anunciantes. Todos estes passos podem ser dados com melhor gestão, visão e capacidade de realização.

Na era da Internet é inexplicável a pouca visibilidade virtual dos clubes e das federações. O BIC Basket, por exemplo, não tem um website e o website da FAB não é actualizado desde 2012.

FUTEBOL

É inadmissível que a FAF retire a selecção nacional de uma competição regional por falta de fundos “por causa da crise económica”. Se quisermos fazer uma comparação, seria o mesmo que a Federação Portuguesa de Futebol desistisse de uma competição por causa da crise económica em Portugal. Uma federação não pode estar tão dependente do dinheiro público, é preciso criar formas alternativas para obtenção/geração de mais fundos assim como gerir melhor os recursos disponíveis. Uma selecção mundialista que não tem uma loja e cujos produtos oficiais não são visíveis em lado nenhum? Uma entidade com patrocinadores que não realiza eventos para os mesmos? Em 2015 temos que fazer mais.

O ideal para o Girabola seria provavelmente as partes interessadas juntarem-se em torno de um objectivo comum e criar uma liga moderna como fizeram os clubes ingleses no início da década de 1990 quando criaram a Premier League, mas se olhassem para sul e tentassem aprender com a experiência sul-africana já seria óptimo. Hoje existem empresas em Angola com alguma dimensão que estariam disponíveis para aumentar a sua exposição ao desporto se este fosse um produto melhor, uma liga moderna hoje tem que ter uma bola oficial, um naming sponsor, uma água oficial, um banco oficial, uma cerveja oficial e o nosso Girabola não tem nada disto.

É preciso entender o fenómeno de crescente desinteresse dos jovens pelos nossos clubes. O clubismo tem muito de bairrismo e algo vai mal quando um puto do Mártires de Kifangondo diz que o seu clube é o Real Madrid e que não tem clube em Angola. Uma terra com tantos jovens deveria ser um paraíso para os clubes se estes soubessem aproveitar o potencial do que têm a mão. Por mais paixão que os dirigentes tenham pelo desporto é preciso juntar uma dose de racionalidade e ver o desporto como um negócio. Não é concebível contratarmos o melhor futebolista do mundo se não temos uma loja e para quê pagar salários tão altos para um espectáculo tão baixo?

BASQUETEBOL

Angola nunca teve um jogador a participar em jogos oficiais da NBA ao contrário de muitos países africanos mas poucos são os países africanos que se podem gabar de ter tantos jogadores que saíram das suas ligas domésticas para testar na NBA, rapidamente lembro-me de Gerson Monteiro, Olímpio Cipriano, Vítor Muzadi e Carlos Morais. Apesar das limitações, existe qualidade no nosso basquetebol que está patente no domínio exercido sobre o continente mas o potencial não está a ser totalmente aproveitado, a nível desportivo e comercial. Contudo, comparando ao futebol, o basquetebol está uns passos a frente como, por exemplo, o campeonato sénior masculino já vai no segundo naming sponsor (o Banco BIC depois do BAI) mas pode-se fazer mais.

Uma das falhas do BIC Basket é a sua pouca expressão fora de Luanda. No campeonato actual participam apenas Luanda (8 equipas), Kwanza Sul (1 equipa) e Benguela (1 equipa) sendo que o campeão nacional – Recreativo do Libolo – tem sede no Kwanza Sul mas disputa os jogos em “casa” no Kikuxi. É preciso alargar a geografia do campeonato aproveitando as infraestruturas existentes em Cabinda, Huíla, Malange, Namibe, Benguela, Huambo e no Kwanza Sul (porque não o Libolo fazer jogos no pavilhão recentemente renovado no Sumbe? Não é Calulo mas pelo menos é na mesma província). É necessário arranjar uma estratégia que envolva empresários locais para que o basquetebol cresça fora de Luanda, no imediato seria importante recuperar as províncias de Cabinda e da Huíla para o BIC Basket sem perder de olho as outras localidades para o médio prazo.

É igualmente necessário melhorar a organização dos jogos e tornar este desporto com muitas paragens num produto de entretenimento (o show do Toy Limpa Chão não chega). A realidade económica de Espanha é diferente da nossa mas se olharmos para a evolução da Liga ACB em termos desportivos e de entretenimento vemos que é possível fazer mais pelo produto.

Assim como no futebol é necessário associar mais marcas e produtos oficiais ao campeonato nacional (bola, bebidas, carro, banco, etc.) e estes patrocinadores têm que ver o retorno desta relação.

Os clubes também têm que fazer mais. Eu vou muitas vezes assistir jogos de basquetebol e quase não vejo produtos oficiais a serem vendidos. As poucas lojas que existem estão no centro da cidade e nas novas zonas de desenvolvimento urbano os adeptos são alimentados exclusivamente por produtos falsos e os clubes não vendem para outras lojas – nunca vi nada no Belas Shopping ou supermercados – uma situação caricata é ver tantas camisolas do Carlos Morais dos Toronto Raptors e não ver nenhuma do Petro, do Libolo ou da selecção nacional. Outro exemplo é a secção no Kero com produtos oficiais do Sport Lisboa e Benfica, com direito a cachecol com os dizeres “ser benfiquista cuia” mas não se vê lá nada dos clubes nacionais.

O merchandising pode ser aproveitado para os atletas de hoje e para os de ontem. Com efeito, se existir a venda uma camisola da selecção angolana de basquetebol com #15 e com o nome “Conceição” eu compraria sem pestanejar.

Para não alongar mais este post gigante, deixo para outra oportunidade a listagem das várias formas de fontes de receitas para clubes e federações.

Ronaldinho Gaúcho

Ronaldinho

O presidente do Kabuscorp Futebol Clube do Palanca disse que vai contratar Ronaldinho Gaúcho em Junho e espera que o craque brasileiro ajude a equipa a conquistar a CAF Champions League, uma competição que já começou e não existe qualquer garantia que o clube do Palanca continuará em prova em Junho.

Na verdade, a ser concretizada, a contratação da antiga estrela do Barcelona e da selecção do Brasil não será a primeira contratação sonante do clube do Palanca cujo presidente parece cultivar um certo apego por “grandes nomes”. Em 2012 Rivaldo representou o Kabuscorp e marcou 11 golos em 21 jogos no Girabola, o clube ficou em quarto à 16 pontos do campeão Libolo. Recentemente o astro congolês, Trésor Mptu Mabi juntou-se ao clube do Palanca, diz o povo que ganha mais de 1 milhão de dólares por ano e pelo contrato recebeu uma residência em Paris mas o clube ganhou apenas uma supertaça desde que a antiga estrela do TP Mazembe juntou-se à turma do Palanca.

Quando o Kabuscorp foi campeão em 2013, a estrela da companhia era o camaronês Meyong, com longa carreira em Portugal e provavelmente com um salário acima da média do Girabola mas nada comparável a “galáxia” de campeões do mundo Rivaldo ou Ronaldinho. A minha questão é: será que o Kabuscorp tem ganho alguma coisa com tais contratações desportiva e financeiramente? Será que o Girabola em particular e o futebol angolano no geral têm ganho alguma coisa com tais contratações?

Hoje não temos sequer uma liga de futebol ajustada à modernidade, os clubes têm muito poucas infra-estruturas de treinamento e investem pouco na formação, algo que é comum ouvir como sendo o calcanhar de Aquiles do nosso futebol. Contudo, sobra sempre dinheiro para contratações sonantes e salários elevados. Há não muito tempo o central português do Kabuscorp, Cláudio Borges (ex Petro) disse que os maiores clubes de Angola pagam melhor que quase todos clubes portugueses com excepção dos grandes e do Braga.

O futebol moderno é uma indústria. Os clubes funcionam como empresas que tentam angariar fundos para competir ao mais alto nível, com diferentes níveis de sucesso é assim que vivem hoje os clubes de futebol que competem nas ligas modernas pelo mundo afora. Entre as fontes de receita dos clubes destacam-se: venda de direitos de transmissão televisiva dos jogos, patrocínios, merchandising, naming rights, venda de ingressos e venda de direitos desportivos de atletas. Como qualquer negócio, existem também custos operacionais como salários, viagens, manutenção de infra-estruturas etc. Apesar da geração de receitas, os custos operacionais elevados têm posto em causa a sustentabilidade de muitos clubes europeus que têm igualmente dívidas elevadas para servir.

O nosso futebol, não gera receitas. Depende totalmente dos patrocinadores que, regra geral, são instituições públicas ou indivíduos politicamente expostos (PEP no acrónimo em inglês). Contudo, os nossos dirigentes estão dispostos a competir com clubes internacionais por direitos desportivos de jogadores que já brilharam nos principais palcos do futebol, mesmo sem vender camisolas, bilhetes, passes de atletas ou direitos televisivos o nosso futebol paga cada vez mais aos atletas e treinadores mesmo que o espectáculo por estes proporcionado não melhora. A formação também já teve melhores dias e todo este rol de insuficiências tem reflexos a nível da selecção que tem coleccionado decepções depois do apogeu alcançado em 2006 com a participação no mundial da Alemanha, curiosamente (ou não), a base da selecção que foi à Alemanha foi campeã africana em sub-20 na última grande “classe” de jogadores formados em Angola como Mantorras, Gilberto e Mendonça.

Provavelmente a missão de Bento Kangamba não é salvar o futebol angolano mas será que a contratação de “ex-grandes jogadores” irá tornar o Kabuscorp campeão africano? A motivação parece ter mais de vaidade do que de lógica desportiva e financeira uma vez que Ronaldinho Gaúcho já não é o mesmo desportivamente mas o seu nome custará muito dinheiro ao clube do Palanca, tanto que é impossível recuperar na actual estrutura do nosso triste futebol. Se calhar a lógica do nosso futebol é queimar dinheiro…