Angola e o seu património imaterial

Masks-of-Central-Africa-China-Marc-Felix-exhibition-3
Máscaras konguesas na exposição Kongo: Power and Majesty do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque

Em Dezembro de 2018 a ministra da cultura Carolina Cerqueira  anunciou que o estilo musical angolano semba será candidato a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO.  As palavras da ministra foram recebidas com entusiasmo e reticências.

Entre os menos entusiasmados ouviram-se diferentes razões, desde críticas ao tratamento que os fazedores do semba têm recebido do ministério a alegada existência de estilos musicais nacionais com maior potencial para tal candidatura, como a Tchianda que segundo o músico Jorge Mulumba “tem mais força que o Semba  porque nos países vizinhos como o Congo, Gabão, Zâmbia e Namíbia toca-se e dança-se este género das Lundas”.

Ao contrário do que se possa pensar, o reconhecimento internacional não é condição necessária para que uma prática cultural seja elevada a património imaterial, mas sim todas as manifestações com valor cultural e social de um povo, cujo valor é reconhecido a nível nacional e nesta categoria encontram práticas mundialmente famosas como o reggae jamaicano ou mais obscuras e locais como o português “cante alentejano”.

É missão do ministério da cultura garantir a protecção e divulgação da cultura nacional nas suas mais distintas manifestações e as evidências apontam para um trabalho com muito espaço para melhorar por parte do MINCULT mas candidatar uma das faces da música urbana moderna angolana é um passo no caminho certo.

Ainda que existam outros estilos entre nós com mais notoriedade – local ou externa – não existe regra nenhuma que imponha limite ao acervo patrimonial de um país e de forma alguma Angola deveria abdicar da ambição de ver outras manifestações culturais dos povos de Angola reconhecidas como Património Imaterial da Humanidade e a lista de candidatos é longa, na minha modesta opinião, e no caso de Angola a influência destas práticas na cultura de outros povos é uma mais-valia.

slave_trade_map_large
Mapa do comércio transatlântico de escravos (dimensão das setas indicativa da movimentação de escravos por origem e destino)

Como várias vezes escrevi neste espaço (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) a história dos povos de Angola foi muito marcada pelo cruzamento da nossa história com o período de expansão europeu iniciado no século XV e capitaneado pelos portugueses. O desenvolvimento da economia globalizada da época e as relações existentes entre Portugal, soberanos e comerciantes do nosso lado da costa colocaram os escravizados angolanos no centro do sistema comercial triangular e, como tal, por terem formado comunidades muito expressivas no Novo Mundo a sua influência cultural globalizou manifestações culturais angolanas, sendo que algumas destas manifestações foram já elevadas a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO como o Espaço Cultural da Cofradía del Espíritu Santo de los Congos de Villa Mella da República Dominicana que foi erguido por descendentes de escravos embarcados essencialmente do norte de Angola para as Américas ou mesmo a Roda de Capoeira brasileira que tem na sua génese a arte marcial do sul de Angola ngolo (ou engolo) e esta prática ainda viva em comunidades do sul de Angola (como na Huíla e Namibe) seria um bom candidato nacional.

Angola deveria igualmente submeter como candidatos a património imaterial da humanidade algumas línguas angolanas que merecem ser protegidas não só pela sua importância local mas também pela influência no exterior como kikongo, kimbundu e umbundu que dominam o mosaico linguístico angolano entre as línguas africanas que falamos e estão ainda hoje presentes nos falares de outros países, designadamente a nível da culinária e música.

music_ndongo
Músicos da corte de Njinga Mbandi (por Giovanni A.Cavazzi de Montecúccolo)

Existem ainda entre nós uma série de manifestações culturais com pouca visibilidade nacional que merecem ser abraçadas, primeiro localmente e a seguir ser analisada o seu potencial para o reconhecimento da UNESCO como (i) alguns dos diferentes rituais de iniciação ainda existentes, (ii) a antiquíssima arte de esculpir materiais sólidos que nos trouxe até hoje o trabalho de artesãos que trabalham sobretudo a madeira, muito presentes nas regiões que foram no passado integrantes do Reino do Kongo e na região Côkwe, assim como deveríamos tomar iniciativa em reclamar para Angola a património cultural que representa a marimba que é um dos instrumentos centrais da cultura musical do antigo Reino do Ndongo que é hoje um instrumento global, sobretudo de grande valor identitário nas Américas, aliás, a Colombia e o Equador têm registado junto da UNESCO a “expressão cultural marimba” como património imaterial da humanidade pelo valor que esta manifestação composta por cânticos acompanhados pela marimba representa para os povos de origem africana de regiões da Colombia e do Equador.

Temos um longo caminho para andar na protecção e divulgação interna da nossa cultura mas o objectivo de obter o reconhecimento internacional deve fazer parte de qualquer plano que vise honrar a história e a cultura dos povos de Angola.

Quiabo, calulu e carimbo e a marca angolana noutras línguas do mundo

gumbo-ftr
Gumbo (Fonte: Community Table)

 

Como já abordei aqui, Angola foi o principal fornecedor de escravos para o Novo Mundo entre os séculos XV e XIX. O domínio dos naturais das terras que hoje formam Angola no infame comércio reflectiu-se na influência que os povos de Angola tiveram na formação cultural de várias nações do mundo. A cultura não é mais do que um conjunto de práticas e conhecimentos acumulados por um determinado povo ao longo dos anos, ela não é estática mas é por norma definida pelo passado, a cultura inclui manifestações artísticas, práticas sociais, culinária e idiomas.

A cultura das nações que nasceram nas Américas, que os europeus designaram de Novo Mundo, resultou da convivência de vários povos da Europa com autóctones americanos e povos africanos levados para lá como escravos. A convivência destes povos criou uma cultura crioula, que apesar de movimentos opressivos europeus não se conseguiu apagar os traços dos índios e os contributos africanos. Este facto é particularmente visível nas expressões artísticas, na língua e na culinária.

No seu livro “Escravos e traficantes no império português”, Arlindo Manuel Caldeira realça que a palavra “carimbo” foi uma das mais significativas contribuições das línguas de Angola (kimbundu, no caso) para a língua portuguesa. Caldeira fala na verdade em “contributo do tráfico de escravos”.

vale a pena registar um contributo do tráfico de escravos para a língua portuguesa: a palavra «carimbo», que designa hoje a peça de metal ou de borracha com que se autenticam documentos ou outros objectos, tem origem Kimbundu (kirimbu = marca, sinal). Era a designação que os pumbeiros e outros traficantes africanos davam ao sinete de metal com que, a quente, se marcavam os escravizados. 

In “Escravos e traficantes no império português” (Arlindo Manuel Caldeira)

Se olharmos para a língua portuguesa em termos globais, pela sua utilização em todas variantes a palavra “carimbo” é de facto uma das grandes contribuições do kimbundu para a língua de Camões. A mesma palavra foi adoptada para o espanhol onde “carimbo” é o instrumento metálico para marcar, a quente, a pele do gado. No entanto, se olharmos para o português do Brasil que é mais crioulo que a variante europeia, a palavra carimbo – em termos de frequência de utilização – encontra vários rivais vindos de línguas de Angola como a palavra “bunda”. A palavra “cachimbo” é igualmente uma palavra de origem angolana que se tornou oficial em todas as variantes da língua portuguesa e é igualmente usada em alguns países que outrora constituíam as Antilhas Espanholas. Contudo, a palavra angolana que goza de maior presença em várias línguas do mundo é provavelmente “quiabo”, sobretudo na versão mbundu “ngombo”.

No Novo Mundo inventado pelos colonizadores europeus a cozinha era responsabilidade das escravas. No Brasil usa-se a expressão “tem um pé na cozinha” para indicar a mestiçagem de alguém, como que dizendo que a pessoa é fruto de uma relação entre o patrão branco e a cozinheira negra. Neste contexto, a presença africana destaca-se na culinária em que as executantes souberam combinar técnicas para confeccionar pratos crioulos que juntavam ingredientes da Europa, das Américas, Ásia e África. Entre os ingredientes africanos assumiu grande destaque o quiabo, cuja popularidade no Novo Mundo deverá estar associada à implementação da culinária africana naquelas bandas porque a palavra “ngombo” está presente na culinária de vários países das Américas e não só.

Em kimbundu e umbundu quiabo diz-se “ngombo” ou “gi’ngombo” ou “ki’ngombo” e a palavra “quiabo” poderá ser uma derivação e aportuguesamento da nossa palavra, pese o facto de alguns historiadores defenderem que existe em kimbundu a palavra “kiabu” e é esta a base da palavra portuguesa “quiabo”. No entanto, outra forma de dizer quiabo em partes do Brasil é “quingombô” e em Cuba, nuestros camaradas chamam o quiabo de “quimbombó”, palavras muito próximas de “ki’ngombo”.

Nos Estados Unidos, onde a palavra em inglês para quiabo, “okra”, tem origem Igbo (Nigéria) existe a cozinha cajun no sul (região que recebeu muitos escravos angolanos) que tem como prato mais famoso o “gumbo” que os historiadores defendem ser uma evolução da palavra “ngombo” (ou “ki’ngombo“). O ensopado do Lousiana que é cozinhado em vários países caribenhos é dominado pelos quiabos. No sul dos Estados Unidos, para dizer quiabo, a palavra alternativa a “okra” é precisamente “gumbo”. A semelhança do inglês dos Estados Unidos, em espanhol quiabo diz-se “okra” ou “gombo”.

Antes de integrar os Estados Unidos, o Louisiana fazia parte da colónia francesa Nova França que tal como outras colónias francesas (Saint-Domingue [Haiti], Martinica, Guadalupe e Guiana) recebeu muitos escravos vindos de Angola o que explica a presença da palavra “gombo” na língua francesa; “gombo” é hoje a palavra francesa para quiabo, exactamente a mesma palavra usada no crioulo haitiano.

Em alternativa a “gombo” os haitianos chamam o quiabo de “callaloo”. Em muitos países das Américas o “gumbo” do Louisiana é chamado de “callaloo” (ou por nomes parecidos) e os brasileiros chamam à um prato semelhante “caruru” que foneticamente parece ser uma forma alternativa de dizer “calulu”; como sabemos, o “calulu” é um prato típico de Angola em que o quiabo marca forte presença. Contudo, alguns linguistas brasileiros defendem que “carurú” tem origem ameríndia (“caaruru” que os Tupi-Guarani chamam a um tipo de ervas comestíveis). Os autores americanos Russell G. Hamilton e Cherie Y. Hamilton exploram a hipótese da origem angolana das palavras “caruru” e “callaloo” com recurso a obra de António de Assis Júnior, um linguista angolano que publicou um dicionário Kimbundu-Português em 1941.

Although it appears that many Portuguese language scholars accept the validity of the above-cited Amerindian derivation, there are researchers who believe that caruru, and all orthographic, phonetic, and semantic variations of the word, including, of course, callaloo, originated in a sub-Saharan African language. According to the highly respected Portuguese-language dictionary Aurélio Século XXI, caruru possibly derives from the African word kalúlu. One might be even more inclined to accept the afore-stated possibility upon verifying that the noun kalúlu (note that in this variation of the word the accent mark indicates that the word is pronounced with the stress on the penultimate syllable rather than on the final syllable, as is the case with calulu and caruru, as well as kalulu, as the latter is printed in the afore-mentioned Aurélio dictionary) appears in António de Assis Junior’s Dicionário Kimbundu-Português (1941). Assis Junior (1887–1960), a highly regarded, acculturated African intellectual, proficient in Portuguese as well as in his native Kimbundu language, defines kalúlu as a botanical term for a plant family found in Angola. Assis also indicates that Kalúlu is a place name in the southern Angolan province of Kwanza Sul.

Many, possibly most, sociolinguists and other researchers with a knowledge of Lusophone Africa believe, however, that kalúlu is an Angolan derivation of the loan word, of Brazilian Indian origin, caruru. What appears to stand in evidence of this belief is found in the culinary sphere. Specifically, the dish called caruru, although of African influence, was first concocted in Brazil and then taken to Angola, where it became known as kalulu (with or without the accent mark on the penultimate syllable), today usually spelled calulu. Although presumably of Brazilian origin, with respect to many of its ingredients and mode of preparation, caruru/calulu is essentially an African dish. A prime ingredient in Brazilian caruru, as well as in the Angolan and Santomean varieties, is okra. It happens that this vegetable pod originated in West Africa and was introduced into the Western Hemisphere in the seventeenth century. The word okra is from Nigeria’s Igbo language and the Portuguese equivalent quiabo is a creolization of a Kimbundu term. Another of caruru‘s and calulu‘s ingredients of African origin is palm oil (azeite de dendê).*

lnlcalulu
Calulu de peixe (fonte:Luanda Nightlife)

 

Os meus conhecimentos limitados de línguas de Angola e culinária tradicional angolana não me permitem atestar de forma conclusiva que “ngombo” foi a principal contribuição linguística das nossas línguas para as línguas do mundo, mas nas minhas “viagens” pela busca de vestígios da angolanidade na cultura crioula do Novo Mundo nunca encontrei nenhuma palavra tão presente na fala e na comida que seja amplamente considerada como originária de Angola já que a origem da palavra “calulu” continua ser disputada por alternativas bastante válidas.

*pela extensão do texto, a tradução para português não foi incluída no artigo, sugiro o recurso ao serviço Google Tradutor.