Book Club | “Poor Economics: A Radical Rethinking of the Way to Fight Global Poverty”

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Adhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer

Esther Duflo, Abhijit Banerjee e Micahel Kremer foram os vencedores do Prémio Nobel da Economia deste ano pelo recurso à análise experimental para redução da pobreza. Duflo e Banerjee têm uma longa história de colaboração e ambos são entusiastas dos Randomized Controlled Trials (RCT) que são avaliações da realidade em ambiente controlado que procura aproximar a economia, normalmente conhecida como ciência social, das ciências exactas que recorrem à testes laboratoriais e avaliação em ambiente de teste para aferir a efectividade de uma tese.

Uma das colaborações de Duflo e Banerjee é o livro “Poor Economics” que resulta da análise das escolhas de famílias com parcos recursos na Índia e permitem perceber a racionalidade de algumas escolhas que para o senso comum da análise económica clássica são consideradas como irracionais.

Pessoalmente tinha muitas reservas sobre a eficácia dos RCT e fui ler o “Poor Economics” precisamente para “ouvir” de dois dos economistas mais reconhecidos deste campo e passei a entender melhor a abordagem e até a ser um entusiasta ainda que com algumas reservas, nomeadamente sobre interpretações das decisões das famílias. Mas em termos gerais, a análise próxima de como o contexto molda as escolhas e as prioridades das famílias pode melhorar potencialmente as políticas públicas destinadas ao alívio da pobreza.

pooreconomics“Poor Economics” é uma boa introdução para esta forma “nova” de se fazer ciência económica, os autores imprimem alguma leveza que não é comum nos papers onde residem grande parte dos RCT e sendo o objectivo maior melhorar a qualidade das medidas e decisões para resolução de problemas sociais, os RCT tendem a focar na resolução de problemas associados a pobreza suportados em melhor informação sobre o sistema de decisão adoptado pelas pessoas com menos posses. Tal como a análise económica empírica, os RCT têm limitações mas o seu valor é demasiado importante para ser ignorar e os júris do Banco Central da Suécia decidiram enfatizar o seu valor premiando figuras destacadas deste campo da ciência económica.

Book Club | “Nudge: Improving Decisions About Health, Wealth, and Happiness”

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Richard Thaler (Quartz)

O Banco Nacional da Suécia anunciou hoje, 9 de Outubro, que Richard Thaler é o vencedor do Prémio Nobel em Ciências Económicas de 2017 pelo seu contributo . Richard Thaler é professor na University of Chicago Booth School of Business, escola de gestão que integra a Universidade de Chicago que tem uma presença excepcional entre os laureados com Prémio Nobel, em particular em ciências económicas.

Richard Thaler é uma das mais relevantes figuras do campo da economia comportamental (behavioral economics), tendo publicado vários artigos que exploravam como a psicologia influencia as decisões dos agentes económicos, desde decisões sobre finanças pessoais à questões de política pública. O seu livro mais popular, co-autorado por Cass Sunstein, é “Nudge” que é um dos melhores livros que alguma vez li.

nudge“Nudge” tem como subtítulo “Improving Decisions About Health, Wealth, and Happiness” (Melhorar as decisões sobre saúde, património e felicidade) e ao longo do livro os autores procuram cumprir com a promessa feita na capa. Thaler e Sunstein apresentam-se como defensores da liberdade individual como princípio para uma sociedade saudável mas admitem que os seres humanos tendem a tomar decisões que produzem invariavelmente resultados indesejáveis que afectam terceiros e oferecem como solução para muitos dos problemas causados pelas nossas decisões a arquitectura das escolhas, ou se quisermos usar uma única palavra: nudge. A palavra nudge pode ser traduzida como um “empurrão” ou “toque”, o tal toque que se propõe corrigir o comportamento das pessoas ou influenciar as suas decisões. A combinação deste princípio com a crença na liberdade individual foi chamado pelos autores de “paternalismo libertário”, um conceito aparentemente contraditório mas que ganhou tracção no pensamento moderno e vale a pena explorar as diferentes propostas estampadas no livro que vão desde como evitar que salpicos de urina em urinóis vão para o chão à correcção do comportamento dos condutores que potencialmente lidam para acidentes mortais.

“Nudge” é um livro sério mas que lê-se com um sorriso no rosto, um livro que viaja entre os campos da psicologia e economia discutindo o que influencia as decisões das pessoas e como os nossos preconceitos e visão do mundo podem “poluir” as nossas decisões com efeitos no bem-estar de outras pessoas, o que, segundo os autores, justifica arquitectar as escolhas das pessoas. No entanto, o livro lembra que esta técnica é muito utilizada como prática comercial, o que tornou “Nugde” num must read entre estudantes de marketing.

Este magnífico livro, publicado em 2008, lembra em certa medida o brilhante “Thinking, Fast and Slow” (2011) de Daniel Kahneman, um psicólogo cujo trabalho de décadas com o seu parceiro Amos Tversky influenciou grandemente as ciências económicas e valeu o Nobel da Economia em 2002, prémio que não pôde partilhar com Tversky que faleceu em 1996.

Para quem nunca leu um livro centrado em economia comportamental, “Nudge” é um bom começo para este campo fascinante das ciências económicas que no fundo é mais próximo da origem do que hoje chamamos de ciência económica se recuarmos para os trabalhos de Adam Smith que sempre colocaram as decisões humanas e o que as influenciam no centro da vida social.