Girabola Zap. Porcelana pode ser o primeiro de muitos a afundar

Há algum tempo escrevi aqui sobre a dependência financeira do desporto angolano em relação ao sector público. Este facto colocava o nosso desporto na linha da frente das potenciais vítimas da crise económica.

O Girabola entretanto conseguiu um patrocinador privado que segundo o Jornal dos Desportos (JD) paga USD 5 milhões por ano à Federação Angolana de Futebol (FAF). O contrato com a Zap deu um sobrenome ao Gira que passou a chamar-se Girabola Zap e é válido por cinco anos. A empresa distribuidora de televisão por subscrição e Internet ficou com o direito de transmissão dos jogos do campeonato num canal fechado e prometeu (e cumpriu) melhorar a qualidade das transmissões.

Segundo o JD a FAF irá abocanhar USD 1 milhão para si e distribuirá USD 4 milhões pelos clubes, sendo que USD 1,5 milhões estão reservados para o campeão e os restantes USD 2,5 milhões servem para pagar os direitos de transmissão televisiva a cada um dos dezasseis clubes que disputam a prova.

zap

Na notícia do JD o autor especulou que os USD 5 milhões representariam a tábua de salvação dos clubes mas não poderia estar mais enganado. No dia 29 de Maio na voz da sua presidente da messa da Assembleia Geral, Joana Lina, o Porcelana Futebol Clube do Kwanza Norte anunciou o abandono do campeonato por não ter condições financeiras para continuar a prova. Admitindo uma distribuição equitativa dos USD 2,5 milhões (que poderá não é o caso) o Porcelana receberia da FAF (via Zap) cerca de 156 mil dólares este ano que seriam provavelmente a maior receita do clube. Segundo Joana Lina, o clube acumula dívidas com colaboradores (três meses sem pagar salários aos jogadores) e com fornecedores, entre eles a própria FAF.

A direcção do Porcelana falou em dívidas mas nãos dimensionou, aliás o nosso desporto não goza de boas relações com a transparência e os orçamentos dos clubes são, regra geral, “segredo de estado”. Aferir a gravidade da situação financeira dos nossos clubes e as suas necessidades é um exercício especulativo. A FAF supostamente exigiu aos clubes a apresentação das suas responsabilidades contratuais mas não é do conhecimento público que esta informação tenha sido disponibilizada.

O que se sabe é que o Girabola Zap é competição nacional melhor distribuída geograficamente com a participação de 8 das 18 províncias e num país com custos de transporte proibitivos a “aventura” de participar no Gira pode sair cara.

Regra geral os custos com salários dominam os orçamentos dos clubes, mas neste deserto de informação que é o nosso desporto é difícil aferir. Contudo, segundo uma reportagem de 2013 (no bom tempo) do jornal Agora o Kabuscorp gastava cerca de 133 mil dólares em prémios por cada vitória, sendo que à cada jogador cabiam 5 mil dólares e ao treinador 7,5 mil dólares. Segundo a mesma reportagem o Recreativo do Libolo gastava 128 mil dólares e o Petro de Luanda cerca de 120 mil dólares em prémios por cada vitória, no Primeiro D’Agosto os prémios variavam entre 75 e 100 mil dólares.

Os prémios hoje provavelmente já não são tão expressivos mas é possível perceber que os valores investidos no nosso campeonato não geram retorno, nem em termos da qualidade dos jogos nem em termos financeiros. Os valores vindos do contrato com a Zap são uma gota no oceano de despesas dos clubes e estes precisam de fazer mais para gerar receitas e num momento em que os potenciais patrocinadores vivem também dificuldades o desafio é ainda maior.

O modelo de patrocínio colectivo, como é o caso da Zap, pode ser o melhor caminho neste período de arrefecimento económico. Os clubes e a FAF (que organiza a prova) deveriam apostar em alargar o leque de patrocinadores do campeonato aumentando assim o bolo a distribuir entre todos, sem prejuízo dos clubes aumentarem os esforços na busca de modelos de financiamento para a sua operação, quer sejam sócios ou patrocinadores.

Petro vs D’Agosto: casa meia cheia e nenhum anúncio visível

No passado sábado, 12 de Setembro, jogaram no estádio 11 de Novembro Petro de Luanda e D’Agosto para a segunda volta do Girabola 2015, pese o facto do Petro estar completamente afastado da discussão do título e do D’Agosto estar com poucas hipóteses de lá chegar dentro da qualidade habitual do nosso campeonato o jogo foi bom. Contudo, o estádio apresentava apenas um anel cheio a meio da segunda parte ficando o anel superior às moscas: o maior clássico do futebol angolano não consegue encher as bancadas do maior estádio do país.

Se ter cerca de 20 mil pessoas num Petro vs. D’Agosto é insatisfatório, ver um estádio despido de anúncios publicitários num jogo destes é preocupante. O desporto angolano tem de libertar-se da dependência do estado imediatamente e buscar a realização do seu potencial, em particular os clubes mais tradicionais como o Petro e o D’Agosto. O mínimo que se pode exigir ao dono da casa, no caso o Petro de Luanda, é cobrir o estádio com as marcas dos seus patrocinadores já que não conseguem vender espaços para potenciais anunciantes. Um estádio despido de publicidade naquele que é o maior clássico do nosso futebol é o cúmulo da incompetência comercial.

Se olharmos para a publicação da Deloitte (Football Money League) que lista os clubes de futebol que geram mais receitas época após época nota-se que os três principais meios de receitas são: (i) comercial (sponsorship/merchandising) (ii) direitos televisivos e (iii) bilheteira por esta ordem, uma vez que a Deloitte exclui as receitas com vendas de jogadores. Olhando para o nosso derby fica claro que as receitas com bilheteiras estão abaixo do desejado e que os clubes precisam de investir no produto para conseguirem melhores contratos de transmissão televisiva e para levarem mais gente aos estádios.

Quando marcou o primeiro golo do jogo o avançado do D’Agosto Ary Papel imitou um gesto de Cristiano Ronaldo que é uma máquina de fazer dinheiro, se calhar o D’Agosto e os seus parceiros deveriam imitar o Real Madrid na promoção das suas principais estrelas e assim melhorar a sua atractividade para potenciais anunciantes. Apesar das insuficiências, o D’Agosto até é dos clubes mais activos em termos de marketing mas ainda assim alguém lembrou-se de usar equipamentos da desconhecida marca “Stadio”. Se o clube pretende aumentar as receitas com a venda de camisolas tem que arranjar um fornecedor de equipamento melhor, investir no design e em mais pontos de venda ou expandir a distribuição por via de parceiros porque a loja do Rio Seco não chega.

Pessoalmente, penso que o preço cobrado para assistir um jogo de futebol em Angola é acessível (varia entre 500 e 1000 kwanzas) mas as clareiras dos estádios indicam que falha alguma coisa. Desconfio que a maka reside na fraca promoção dos eventos e na qualidade do “produto” que goza de má reputação (se calhar com razão). Atendendo o facto da vida financeira dos clubes estar cada vez mais difícil por dificuldades financeiras de alguns patrocinadores que não encontram retorno nas suas parcerias com os clubes, é urgente apostar na organização e na qualidade dos jogos e com isto vender melhor o produto para a televisão e para os adeptos.

Não é realista que um clube angolano venda sequer 5% do que vende o Real Madrid em bilheteiras, mas será que vender 1% dos 113,8 milhões de euros que as bilheteiras do Real Madrid arrecadaram para o clube na temporada 2013/2014 são assim tão irrealistas para um Petro ou 1.º D’Agosto?

Ronaldinho Gaúcho

Ronaldinho

O presidente do Kabuscorp Futebol Clube do Palanca disse que vai contratar Ronaldinho Gaúcho em Junho e espera que o craque brasileiro ajude a equipa a conquistar a CAF Champions League, uma competição que já começou e não existe qualquer garantia que o clube do Palanca continuará em prova em Junho.

Na verdade, a ser concretizada, a contratação da antiga estrela do Barcelona e da selecção do Brasil não será a primeira contratação sonante do clube do Palanca cujo presidente parece cultivar um certo apego por “grandes nomes”. Em 2012 Rivaldo representou o Kabuscorp e marcou 11 golos em 21 jogos no Girabola, o clube ficou em quarto a 16 pontos do campeão Libolo. Recentemente o astro congolês, Trésor Mptu Mabi juntou-se ao clube do Palanca, diz o povo que ganha mais de 1 milhão de dólares por ano e pelo contrato recebeu uma residência em Paris mas o clube ganhou apenas uma supertaça desde que a antiga estrela do TP Mazembe juntou-se à turma do Palanca.

Quando o Kabuscorp foi campeão em 2013, a estrela da companhia era o camaronês Meyong, com longa carreira em Portugal e provavelmente com um salário acima da média do Girabola mas nada comparável a “galáxia” de campeões do mundo Rivaldo ou Ronaldinho. A minha questão é: será que o Kabuscorp tem ganho alguma coisa com tais contratações desportiva e financeiramente? Será que o Girabola em particular e o futebol angolano no geral têm ganho alguma coisa com tais contratações?

Hoje não temos sequer uma liga de futebol ajustada à modernidade, os clubes têm muito poucas infra-estruturas de treinamento e investem pouco na formação, algo que é comum ouvir como sendo o calcanhar de Aquiles do nosso futebol. Contudo, sobra sempre dinheiro para contratações sonantes e salários elevados. Há não muito tempo o central português do Kabuscorp, Cláudio Borges (ex Petro) disse que os maiores clubes de Angola pagam melhor que quase todos clubes portugueses com excepção dos grandes e do Braga.

O futebol moderno é uma indústria. Os clubes funcionam como empresas que tentam angariar fundos para competir ao mais alto nível, com diferentes níveis de sucesso é assim que vivem hoje os clubes de futebol que competem nas ligas modernas pelo mundo afora. Entre as fontes de receita dos clubes destacam-se: venda de direitos de transmissão televisiva dos jogos, patrocínios, merchandising, naming rights, venda de ingressos e venda de direitos desportivos de atletas. Como qualquer negócio, existem também custos operacionais como salários, viagens, manutenção de infra-estruturas etc. Apesar da geração de receitas, os custos operacionais elevados têm posto em causa a sustentabilidade de muitos clubes europeus que têm igualmente dívidas elevadas para servir.

O nosso futebol, não gera receitas. Depende totalmente dos patrocinadores que, regra geral, são instituições públicas ou indivíduos politicamente expostos (PEP no acrónimo em inglês). Contudo, os nossos dirigentes estão dispostos a competir com clubes internacionais por direitos desportivos de jogadores que já brilharam nos principais palcos do futebol, mesmo sem vender camisolas, bilhetes, passes de atletas ou direitos televisivos o nosso futebol paga cada vez mais aos atletas e treinadores mesmo que o espectáculo por estes proporcionado não melhora. A formação também já teve melhores dias e todo este rol de insuficiências tem reflexos a nível da selecção que tem coleccionado decepções depois do apogeu alcançado em 2006 com a participação no mundial da Alemanha, curiosamente (ou não), a base da selecção que foi à Alemanha foi campeã africana em sub-20 na última grande “classe” de jogadores formados em Angola como Mantorras, Gilberto e Mendonça.

Provavelmente a missão de Bento Kangamba não é salvar o futebol angolano mas será que a contratação de “ex-grandes jogadores” irá tornar o Kabuscorp campeão africano? A motivação parece ter mais de vaidade do que de lógica desportiva e financeira uma vez que Ronaldinho Gaúcho já não é o mesmo desportivamente mas o seu nome custará muito dinheiro ao clube do Palanca, tanto que é impossível recuperar na actual estrutura do nosso triste futebol. Se calhar a lógica do nosso futebol é queimar dinheiro…