Terrorismo, risco, eurocentrismo, cobertura mediática e indiferença

Os psicólogos (e não só) estudam há anos como a proximidade de eventos afecta a nossa percepção de risco e expõe a nossa incapacidade de construir opiniões com base em factos de forma “involuntária” como Daniel Khaneman no seu magnífico livro “Thinking, Fast and Slow” (“Rápido e Devagar”) explica como dois sistemas de pensamento (i) Sistema 1 para questões ligeiras e o (ii) Sistema 2 para questões que exigem maior ponderação, afectam as nossas opiniões e escolhas.

Como a proximidade dos eventos – em termos geográficos, temporais ou puramente sentimentais – afecta a nossa percepção de risco os cidadãos europeus na presença dos últimos ataques terroristas no seu solo tendem a formular teorias que nos levam a concluir que a situação de segurança na Europa nunca esteve mais ameaçada por actos terroristas do que actualmente. Na verdade, os ataques terroristas em solo europeu eram mais frequentes e matavam mais pessoas nas décadas de 1970  e 1980 do que no presente, apesar de existir uma tendência crescente. O risco existe, a realidade pode piorar, mas a actualidade não é o pior pelo que já passou o continente.

Vítimas de ataques terroristas na Europa Ocidental 1970-2015

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De todo modo, o mais gritante é a diferença entre o número de vítimas de terrorismo na Europa ocidental e nas regiões que mais cidadãos morrem em atentados terroristas: Médio Oriente e África. Se considerarmos todos os ataques terroristas ocorridos no mundo registados pela Global Terrorism Database entre 2001 e 2014, as vítimas na Europa ocidental foram 420 contra cerca de 108 mil no resto do mundo.

EurovsWorldTerror

Mas porque será que os ataques em certas partes do mundo geram mais notícias do que noutras – designadamente em África – se as vidas valem o mesmo? Aparentemente, o mundo continua a ser eurocêntrico ou, se quisermos ser mais realistas, centrado no “ocidente”. Esta realidade associada a maior cobertura mediática de ataques no ocidente pode explicar hashtags como #JeSuisCharlie e a inexistência de campanhas semelhantes para vítimas de terrorismo na Nigéria, Iraque ou Afeganistão. Estas manifestações de solidariedade selectivas, naturalmente, geram também protestos sob acusação de insensibilidade para casos semelhantes em geografias menos “privilegiadas”.

O poderio económico construído ao longo de séculos, incluindo episódios pouco abonatórios para história das potências do atlântico que incluíram exploração de escravos e uma colonização marcada pela brutalidade, criaram um mundo europeizado que inclui transferência cultural por assimilação e por força que tornaram os hábitos e línguas europeias globais.

O mundo colonial que em África vigorou até ao último quarto do século XX criou relações de dependência metropolitana que acabou por separar afectivamente povos e criou “relações especiais” entre colónia e potência colonizadora que até hoje são visíveis, desde “clubes de futebol do coração” ao local preferido para férias dos colonizados. Há uns meses abordei a questão da nossa fraca interacção com outros povos africanos em oposição da nossa relação com cidadãos de outros continentes quando falava sobre os ataques xenófobos na África do Sul.

Tenho a impressão (e temo estar certo) que as organizações regionais e continentais em África servem apenas para banquetes periódicos dos líderes enquanto que os cidadãos africanos pouco ou nada  beneficiam das relações institucionais intra-africanas.

O sistema colonial terminou mas a herança continua presente. Tipicamente, os países africanos têm maiores (e por vezes melhores) relações com a antiga potência colonial ou com “irmãos do mesmo colono” (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Brasil, Portugal | Ghana, Nigéria, Uganda, Reino Unido | Benin, Senegal, Mali, França). No caso de Angola, vivem entre nós muitos imigrantes africanos, europeus, americanos e asiáticos e é perfeitamente palpável a diferença das nossas relações pessoais com europeus e com africanos. Nas nossas festas mais facilmente encontramos um amigo francês ou português do que um congolês ou nigeriano eventualmente porque estamos cercados de preconceitos que só poderão ser resolvidos com maior interacção e a cultura pode jogar um papel importante já que é igualmente palpável uma afinidade com as cores e sons de outros países do continente porque nenhum ouvido africano é indiferente ao batuque.

O poder económico implica maior capacidade de produção e difusão de conteúdos culturais cuja aceitação beneficia da proximidade afectiva criada ao longo de séculos de relações comerciais e culturais como força dominadora e produzem um mundo altamente influenciado pelas tendências que nascem nos países desenvolvidos do ocidente, facto que na visão de algumas pessoas trata-se de um movimento de imposição cultural que deve ser combatido.

Para algumas pessoas, o distanciamento dos que nos são geograficamente próximos foi promovido por séculos de colonização que nos aproximaram da potência colonizadora à milhares de quilómetros e moldaram a nossa relação com outros países africanos.

Defendendo maior distanciamento ou não, a verdade é que a nossa vida está cercada pelo que vem do G-7 e seus amigos. O que vestimos, boa parte do que comemos, os carros que conduzimos, os telefones que usamos, os filmes  e séries que assistimos, parte relevante da música que ouvimos e muito mais. As referências desportivas que temos actuam naqueles palcos, quer sejam de lá, de cá ou de acolá o Steph Curry, LeBron James, Luol Deng e o Serge Ibaka actuam na NBA e a liga dos campeões que nos faz adiar compromissos inadiáveis é a europeia e não a africana, conheço inclusive pessoas que nem a selecção nacional seguem mas conhecem as estrelas das selecções mais esquisitas da Europa. Esta afectividade cria a tal proximidade que gera reacções mais fortes quando acontecem ataques terroristas em Paris do que em Maiduguri (aliás, quantos sabem onde fica “isto”?, thank you Google). Se um amigo meu contar-me que um vizinho seu que não conheço foi assaltado e agredido a minha reacção será menor do que se porventura o assaltado for o meu amigo. Portanto, as reacções não podem ser dissociadas da proximidade, seja ela geográfica ou sentimental. A meio do século XVIII Adam Smith explicou magistralmente a dinâmica das nossas relações com os outros no livro “The Theory of Moral Sentiments”.

Por outro lado, fruto de maior capacidade económica, os meios de comunicação com alcance global são essencialmente dos Estados Unidos ou da Europa ocidental (CNN, BBC, Euronews, France 24) apesar dos esforços recentes do Qatar (Al Jazeera) e da Rússia (RT). Estando as pessoas expostas mais tempo à certas realidades a tal relação de proximidade torna-as mais sensíveis – para o bem e para o mal – às questões que afectam as regiões com as quais têm maior “contacto”.

O estudo “Why do we see what we see” de Michelle Henery  demonstra que no período de observação para realização do estudo que analisou a cobertura da CNN International, BBC World News e Al Jazeera English (AJE), as cadeias ocidentais ocuparam grande parte da sua grelha com acontecimentos na Europa ocidental e América do Norte (BBC 73% e CNN 65%) enquanto que a Al Jazeera dedicou 45% da sua programação às mesmas regiões, contudo a cadeia do Qatar não goza da mesma audiência global que as concorrentes e apesar de cobrir menos a Europa ocidental e América do Norte que as outras cadeias, estas duas regiões combinandas continuam a ser as que merecem maior cobertura na grelha da AJE. Ponto comum nas três cadeias é a fraca cobertura de África e Ásia. Em breve o continente africano vai ganhar o Africanews, um serviço noticioso baseado em Ponta Negra no Congo que pertence à Euronews, sedeada em França.

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Fonte: “Why do we see what we see”, Reuters Institute/Oxford

Acresce ainda, que a cobertura desigual não pode ser alheia à frequência dos eventos nas regiões em causa, ou seja, se os ataques de terrorismo se tornam frequentes em Bruxelas como são em Bagdad, o interesse jornalístico diminui, da mesma forma que um assalto a mão armada em Lisboa gera mais notícias do que um assalto equivalente em Luanda. Como é óbvio, este factor não explica tudo porque a Costa do Marfim não tem sido fustigada com frequência por ataques terroristas mas o ataque que matou mais de 22 pessoas em Grand-Bassam não gerou tantas notícias como o que matou 14 pessoas na Califórnia.

Em suma, sendo válidas as manifestações de indignação pela disparidade na cobertura de ataques terroristas equivalentes, os nossos protestos não se podem esgotar em situações de tragédia. A grande tragédia na realidade é falta de interesse por estas geografias quando não existem questões de insegurança em jogo. Este desinteresse não produz a afectividade necessária para mobilizar a solidariedade geral em tempos de aflição, ficando esta a mercê dos que ainda que sem a dita relação de proximidade sentem-se moralmente dissuadidos por qualquer situação trágica, estes aparentemente são uma “imensa minoria”.

No caso de África, felizmente, a tecnologia está a nosso favor e a explosão de meios de difusão cultural (sobretudo música) que procuram uma audiência pan-africana tem feito aumentar o consumo de manifestações culturais intra-africanas e esta aproximação pode ajudar a construir a necessária proximidade afectiva que gera as reacções por muitos reclamada.

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