Book Club | “Private Empire: ExxonMobil and American Power”

27book-superjumboO novo secretário de Estado dos Estados Unidos, Rex Tillerson, era até bem pouco tempo o CEO da ExxonMobil, a empresa que ao longo das últimas décadas tem sido consistentemente a maior ou segunda maior empresa do mundo usando diferentes métricas. O reputado jornalista e escritor Steve Coll publicou há alguns anos aquele que é considerado o melhor livro sobre a ExxonMobil (Exxon) em particular e um dos melhores livros sobre o sector petrolífero no geral.

O livro “Private Empire” ajuda-nos a conhecer melhor o poder, a complexidade e sobretudo a forma de funcionamento da ExxonMobil que a partir do Texas gere um império privado cujo modelo de negócio implica à muitos choques com a própria política externa dos Estados Unidos. No livro, Coll recorda uma resposta de Lee Raymond – CEO que antecedeu Tillerson – quando lhe foi questionado por outro oil man se estaria interessado em investir em refinarias nos Estados Unidos para proteger os Estados Unidos de uma possível crise de gasolina, Raymond respondeu simplesmente “Não sou uma empresa dos Estados Unidos e não tomo decisões com base no que é bom para os Estados Unidos”.

O livro percorre boa parte da história da Exxon, desde os tempos que John D. Rockefeller fundou a Standard Oil em 1870 que foi partida em várias empresas por exigência regulatória no início do século XX e uma das empresas que resultaram desta decisão que procurava melhorar a concorrência no sector veio a tornar-se no gigante que conhecemos hoje como ExxonMobil ao longo de muitos anos. Coll aborda com detalhe o acidente com o petroleiro Exxon Valdez no Alasca em 1989 e estende a história da empresa até à primeira década do século XXI marcada pela aposentadoria de Lee Raymond e a ascenção ao topo de Rex Tillerson.

Raymond, que liderou a empresa entre 1993 e 2005, uma política de segurança restritiva e de aplicação ampla que custa milhões de dólares anualmente mas protege a empresa e os seus colaboradores dos riscos inerentes a actividade petrolífera, assim como protege os seus interesses de possíveis custos reputacionais associados aos acidentes que acontecem na indústria petrolífera que por norma têm grande impacto ambiental. Raymond pregou igualmente uma postura de independência do poder político que, como grande parte das grandes empresas americanas, foi sempre alvo de lobby por parte da Exxon que procurava influenciar a direcção das políticas que afectam as operações nos Estados Unidos e no exterior. Com efeito, é no exterior que a Exxon actua com maior liberdade, tendo inclusive departamentos próprios que estudam questões geopolíticas que superam em capacidade e qualidade os serviços secretos de muitos países onde a Exxon mantém operações, designadamente as nações africanas.

Coll conta ainda que a empresa que construiu uma reputação de disciplina financeira e engenharia de excelência sempre teve uma postura conservadora na exploração petrolífera no exterior mas quando viu-se ameaçada pela presença na exploração externa por outras petrolíferas ocidentais e com cada vez mais restrições na exploração petrolífera no offshore americano a Exxon apostou numa expansão da exploração e produção fora dos Estados Unidos que levou a empresa a apostar em África, na Ásia e na Rússia e este novo modelo alimentou a reestruturação no governance da empresa e fez crescer o poder económico e político global da Exxon que opera em Angola com a marca Esso.

“Private Empire” é um bom livro para entender como funciona a Exxon que é tida como um exemplo de disciplina financeira, execução operacional e capacidade de negociação com diferentes actores políticos e sociais, embora tenha uma relação complicada com os ambientalistas apesar de nos últimos anos sob direcção de Rex Tillerson a empresa ter mudado consideravelmente o seu posicionamento público sobre as energias renováveis e sobre o impacto dos combustíveis fósseis no meio ambiente. O livro traz vários episódios pouco abonatórios para a imagem exemplar que Exxon procura cultivar com actuação em vários países com instituições frágeis num sector altamente competitivo que muitas vezes conduziu a escolhas pouco ortodoxas. Contudo, a imagem da empresa não sai necessariamente chamuscada uma vez que fica latente que o rigor e espírito de santidade dos contratos ditam as principais decisões da empresa.

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