Turismo: bons sinais de um longo caminho.

flickr_cegonha
José Carlos Costa (flickr)

Os governantes angolanos habituaram- nos com a elaboração de programas sectoriais pomposos que poucas vezes chegam a fase de implementação e quando acontece a implementação não produz o preconizado. Sendo o país dos projectos e planos, o sector do turismo também tem os seus planos, o mais recente que me lembro aponta correctamente os segmentos a apostar como:

  • Praia e sol: aproveitando o potencial do clima veraneio durante 3/4 do ano e a longa e diversificada costa angolana;
  • Natureza: foco no projecto Okavango sem esquecer na melhoria de outros parques nacionais que no presente não têm condições de constituir atracção turística em face da concorrência regional (sobretudo Namíbia, Botswana, África do Sul);
  • Cultura e eventos: aqui a aposta seria em eventos com impacto internacional a nível das artes como tivemos no passado o Luanda Jazz Festival desenhado a imagem do bem sucedido Cape Town Jazz Festival e aproveitar o rico passado dos povos de Angola para construção de produtos turísticos.

Na minha opinião os segmentos foram bem identificados mas a sua materialização tem longo percurso considerando as actuais condições que temos, quer seja a nível de infra-estruturas como a nível institucional. Desta frente – institucional – têm surgido boas notícias com o aumento da lista de países cujos cidadãos podem visitar Angola como turistas sem necessitar de vistos (reciprocamente) e o lançamento de uma comissão que visa basicamente desburocratizar a emissão de vistos com foco em potenciais grandes emissores de turistas como países da Europa ocidental.

Contudo, ainda que seja uma condição necessária para a expansão significativa do sector do turismo, a isenção de vistos e/ou facilitação da sua emissão por si só não tornará Angola no próximo destino turístico de eleição na África Austral. O nosso caminho é longo e o turismo é afectado pelos mesmos problemas que mutilam as outras indústrias em Angola como: (i) quantidade e qualidade reduzida das infra-estruturas, (ii) custos de estrutura agravados pela falta de infra-estruturas que obrigam sistemas backup para geração de electricidade e fornecimento de outras utilidades, (iii) falta de pessoal formado, (iv) alto nível de imprevisibilidade/discricionaridade no sistema de justiça e (v) segurança pública frágil.

No estado actual Angola o país consegue atrair turistas curiosos (e corajosos) que olham para Angola como “a última fronteira da África Austral” como o Paul Theroux aborda no seu livro “O último comboio para Zona Verde” , mas este pequeno grupo não constituirá a massa de turistas que o nosso país tem potencial para atrair se conseguir eliminar todos os elementos ruidosos.

Nos últimos tempos o destino Angola tornou-se mais barato para estrangeiros fruto da desvalorização/depreciação do kwanza e da quebra dos preços das passagens aéreas com destino Luanda a partir do estrangeiro. Mas ainda não existem sinais de um boom no número de visitantes estrangeiros a Angola eventualmente porque a desvalorização da moeda e quebra dos preços das passagens aéreas (que poderão estar associadas à menor procura para o número de lugares disponibilizados pelas companhias aéreas) não são factores suficientes para tornar o nosso país num destino de férias do turista médio.

A divulgação profissional do destino Angola é um passo natural mas antes disto existe muita organização interna por fazer para podermos receber turistas com elevados níveis de exigência. Um dos segmentos apontados no plano de desenvolvimento do turismo em Angola é precisamente o cultural mas neste campo o caminho é muito longo. O recente reconhecimento de Mbanza Congo como património da humanidade deve aumentar as responsabilidades do Estado na melhoria das condições gerais daquela localidade, dos acessos à esta e da devida inventariação, catalogação e sinalização dos locais de interesse histórico e turístico e deverá ser o ponto de partida para Angola reclamar o seu lugar na construção do mundo como o conhecemos hoje, especialmente em termos culturais como já várias vezes escrevi neste espaço (aqui, aqui, aqui e aqui).

Na minha modesta opinião, o curto-médio prazo do turismo angolano, mais do que o segmento natureza, deverá estar centrado no património cultural, quer seja material como imaterial e não apenas na associação ao comércio de escravos entre os séculos XV e XIX como também na evolução cultural relativamente recente que trouxe-nos o popular estilo musical e de dança kizomba que, por incrível que pareça, não tem ainda um grande festival de renome mundial em Luanda. Infelizmente o “país” conhece mal a sua história e como tal não existe esforço para sua divulgação. Por exemplo, há algum tempo numa conferência nos Estados Unidos o historiador brasileiro Roquinaldo Ferreira mencionou Luanda entre os locais que preservam mal a história da escravatura e considerou mesmo o museu da escravatura no litoral sul de Luanda como uma amostra desproporcional para a importância que este local teve no período do tráfico transatlântico. O Gana aposta muito no turismo associado ao tráfico de escravos e é o destino preferencial da Diáspora africana nas Américas (em particular nos Estados Unidos) e a Serra Leoa tem um projecto desenhado para maximizar os visitantes que buscam este tipo de turismo com resultados até aqui parecidos.

No entanto, o facto de considerar o segmento cultural o de maior potencial para atracção de turistas estrangeiros não implica que devemos deixar de apostar nos outros segmentos. Angola não pode dar-se ao luxo de não investir no projecto do Okavango e da exploração turística responsável do corredor do rio Kuito cujo potencial tem sido revelado pelas recentes expedições da National Geographic Society. O parque nacional do Iona no sul pode ser parte integral do turismo das províncias da Huíla e Namibe, constituindo assim uma oferta diversificada que inclui praia, aventura e história.

As limitações  a nível da mobilidade em Angola e o facto de Luanda ter o principal aeroporto do país implicam que no curto prazo grande parte do turismo internacional será feito em Luanda e arredores e a oferta cultural superior da cidade capital é um elemento a explorar. A vida nocturna, a rica e dinâmica cultura urbana, a história, a restauração colocam a capital como elemento central de qualquer estratégia de desenvolvimento do turismo nacional.

Contudo, as correcções específicas do sector turístico precisam de ser acompanhadas pela melhoria de questões com alcance transversal como mencionado anteriormente e este facto coloca os desafios do desenvolvimento do turismo ao nível do resto do país. Mas os sinais são positivos.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s