Privatizações, pobreza e o consumo

O Governo angolano pretende nos próximos tempos transferir da esfera pública para a privada um conjunto de activos no âmbito do programa de privatizações (PROPRIV). O histórico empresarial do Estado angolano desde que o país se tornou independente é deprimente, em termos globais as empresas apresentam grandes fragilidades a nível de gestão e deficiente capacidade comercial para sua sustentabilidade.

A privatização trará em teoria melhor gestão, mais tecnologia e aumento da capacidade das empresas gerarem fundos para prossecução dos seus objectivos económicos e financeiros e nesta equação consta o consumo, que deverá ser a fonte primária de receitas necessárias para manter as empresas em operação.

Contudo, um obstáculo importante para termos mais consumo privado é o nível médio de rendimentos em Angola que é muito baixo, cerca de 15 mil kwanzas mensalmente por família segundo o INE (mediana nacional). A desigualdade que foi construída ao longo de anos de uma longa guerra civil e de uma governação inadequada criou um reduzido grupo com capacidade consumidora para além dos meios de necessidade básicos e uma grande maioria que alterna entre a pobreza e a miséria e esta realidade limita sobremaneira o mercado de muitas empresas. Nos últimos anos muitas empresas foram forçadas a vender a preços fixados pelo Governo para que os seus consumidores pudessem pagar em troca da promessa de subsídios a preços e, muitas vezes, realização por parte do Estado de investimentos necessários para a sua operação.

A privatização, em teoria, dita o fim deste modelo de gestão e obrigará os novos donos a depender de proveitos que resultam da venda de bens e serviços, mas não é garantido que existirá a procura necessária no curto/médio prazo em face do nível de rendimentos do consumidor médio angolano que no presente tem acesso à alguns bens e serviços porque têm preços subsidiados ou porque o fornecedor tem problemas a nível da cobrança.

Em outros mercados alguns investidores conseguiram negociar níveis de consumo mínimos que na prática forçam o Estado a continuar a subsidiar alguns negócios quando não são alcançados alguns objectivos comerciais. A questão da pobreza poderá ser aliviada com melhor investimento e gestão mais eficiente de alguns activos que hoje são públicos e passarão em breve para mãos privadas, mas a transferência de propriedade além de não ser uma fórmula infalível para melhorar os resultados pode muitas vezes expor problemas que a mera alteração de proprietário não resolvem porque a herança dos anos de gestão pública errática não podem ser resolvidos no curto prazo.

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s