China ultrapassa EUA? Sim, mas apenas em termos PPP

China_USA

Tive uma professora de história que dizia que “se  o mundo fosse perfeito a China seria o país mais rico do mundo” pelo simples facto de ter mais pessoas, ora bem, segundo o FMI a República Popular da China ultrapassou os Etados Unidos como a maior economia do mundo na perpectiva PPP, ou seja, usando uma taxa de câmbio que procura igualar o poder de compra entre os países.

Segundo o FMI, a economia chinesa produziu $17,6 biliões contra os $17,4 biliões (dito triliões pelos anglo-saxões e brasileiros, i.e., 12 dígitos a seguir ao 17!).

É verdade que em termos de PIB a taxas de câmbio correntes e per capita o fosso entre a China e os Estados Unidos continua gigante mas a história de crescimento da China, numa combinação entre economia de mercado e estado autocrático é impressionante, a recente desaceleração do crescimento não é uma grande preocupação em ermos económicos mas poderá colocar maior pressão no lado político com o aumento de tom daqueles que pedem reformas democráticas no mais populoso país do mundo.

Na lógica da minha professora, no mundo perfeito, o PIB per capita deveria ser muito semelhante entre todos os países e sendo a China o país com mais pessoas no mundo, o seu PIB em termos nominais deveria ser o maior de todos e o aumento acelerado da riqueza por cada chinês nos últimos anos permitiu ao regime chinês gerir com relativa facilidade todas as pressões sociais mas esta realidade poderá ser diferente nos próximos tempos neste mundo cada vez mais difícil de controlar e com as pessoas a verem a sua riqueza crescer cada vez menos.

Usando taxas de câmbio correntes, o PIB dos Estados Unidos continua a ser muito superior ao chinês, $17,4 biliões contra $10,3 biliões e não deverá ser nesta geração que a China vai conseguir destronar os Estados Unidos.

Se tivéssemos a refinaria do Lobito em operação importaríamos menos

O governo angolano, em presença da redução significativa das receitas fiscais e da entrada de divisas que permitem gerir a taxa de câmbio do kwanza por parte do banco central, propôs ao parlamento uma “contribuição especial” que visa cobrar uma taxa sobre algumas operações cambiais. Esta medida não é clara, ainda não percebi se o objectivo é fazer crescer a receita fiscal, reduzir a procura de divisas ou as duas coisas. Fiquei surpreso quando li uma entrevista do governador do BNA a justificar uma medida fiscal, sendo do campo que defende uma política monetária independente (mas não indiferente) da política fiscal fiquei mal impressionado por esta mistura de “funge com cachupa”.

Esta medida pode de facto aumentar a receita fiscal se as transferências para o exterior se mantiverem elevadas, o que não parece ser o caso. Se por outro lado o objectivo passar pela redução da procura de divisas podemos então dizer que a medida funcionou se esta contribuir para redução de transferências para o exterior, mas neste caso bastaria um aviso do BNA como aconteceu com a lista de prioridades passadas para os bancos.  E há riscos, como:

  • Criar um processo complicado que pode gerar corrupção. Há que ter presente que vivemos numa sociedade em que os cidadãos são especialistas em “esquemas” e que muitas vezes os que têm poder de decisão criam dificuldades para vender facilidades;
  • Embora a medida seja temporária, existe o risco real desta medida afectar a capacidade da economia angolana atrair investimento e talento externo, dois elementos que precisamos para fazer crescer a economia

Como já aqui escrevi, a nossa economia sofre de problemas de estrutura que estão umbilicalmente ligados às escolhas feitas para a organização sócio-económica do país e para o modelo de desenvolvimento que, em boa verdade, não se consegue identificar na leitura dos vários documentos produzidos pelos estado angolano nos últimos anos.

Angola iniciou um processo de desdolarização sem ter as bases de sustentação necessárias para aguentar um choque. Eliminar a dualidade monetária não foi para mim um erro, a maka reside em iniciar este processo de forma isolada, sem que tivessem sido feitas as reformas necessárias para expandir a produção interna de bens e serviços que pudessem aumentar as exportações fora do sector extractivo e substituíssem de forma competitiva as importações e desta forma reduziríamos a pressão sobre as divisas.

Sobre a procura de divisas, olhando para alguns produtos importados que poderiam ser substituídos por produção local com decisões de investimento em tempo oportuno destaco os combustíveis, cujas importações levam-nos a reflectir sobre a incompreensível inexistência de capacidade de refinação de petróleo bruto em Angola.

Entre 2001 e 2013 o consumo de derivados de petróleo em Angola cresceu cerca de 10% ao ano, sendo que passámos de 29 mil barris por dia em 2001 para 133 mil barris por dia em 2013. Para referência, no mesmo período, a taxa média composta (CAGR) para África foi de 2,7%. Contudo, a capacidade de refinação interna tem se mantido praticamente inalterada há muitos anos com a refinaria de Luanda a ser auxiliada apenas pela pequena capacidade de refinação da CABGOC em Cabinda. A Sonangol que nos últimos anos investiu em tudo e mais alguma coisa, em particular no sector financeiro português (hoje é o maior accionista do banco Millennium BCP) parece não privilegiar o investimento na sua capacidade de refinação que para além de permitir reduzir as importações poderá aumentar as exportações nacionais.

Consumo Petróleo Angola (IEA)
Angola importou combustíveis no valor de $2,07 mil milhões em 2013 ($1,13 mil milhões em 2012) segundo o INE. Como a refinação interna é reduzida e estática, a importação de produtos petrolíferos refinados tem crescido de forma acelerada nos últimos anos para responder ao aumento do consumo, com efeito as importações cresceram a uma média de 32,2% ao ano entre 2001 e 2010 (IEA).

ImportsRefinados(IEA)

Os valores importados poderiam ser muito menores ou mesmo nulos se a refinaria do Lobito já tivesse saído do papel há mais tempo. Vale acrescentar que a refinação de combustíveis é fundamental para a indústria petroquímica que poderia igualmente reduzir a importação de outros produtos como polímeros para produção de plásticos e outros produtos químicos derivados do petróleo.

Resumindo, os nossos problemas de hoje não podem ser separados das escolhas que fizemos ontem. A culpa não é só “do mercado internacional”, há uma boa parte que deve-se a decisões inteiramente angolanas. O hoje é filho do ontem e pai do amanhã.

P.S.: Não abordei com profundidade o mérito de investir rios de dinheiro no sector financeiro português, assim como poderia escrever uma tese sobre a saída de divisas para investimentos brutais lá fora. Fica para outra oportunidade.

Book Club | “Why Nations Fail – The Origins of Power, Prosperity, And Poverty”

Existem muitas teorias sobre o subdesenvolvimento dos países como a geografia ou a cultura de um determinado povo mas Daron Acemoglu e James Robinson (dois dos mais respeitados académicos na área da economia do desenvolvimento) resumem o sucesso e o insucesso das nações à qualidade das suas instituições. Ao longo do livro”Why Nations Fail” (“Porque Falham as Nações” na versão portuguesa) Acemoglu e Robinson demonstram que os países que criaram instituições inclusivas e que incentivam a liberdade de criação são mais inovadores, mais produtivos e mais desenvolvidos do que aqueles que assentam em instituições “extractivas”, ou seja, os países em que as instituições políticas e económicas são desenhadas para servir os interesses políticos e económicos de um grupo de pessoas às expensas do resto da sociedade, estes países podem até experimentar períodos de crescimento económico acelerado mas por norma este crescimento é desequilibrado e insustentável, conduzindo as sociedades a instabilidade económica e social.

O livro tem um tamanho que intimida (544 páginas na versão original) mas foi tão bem escrito que devora-se num instante mesmo por aqueles que não têm conhecimento profundo sobre economia. O livro começa por apresentar a situação económica de duas cidades vizinhas e homónimas, uma no México e outra nos Estados Unidos, com pessoas da mesma etnia e no mesmo espaço geográfico cujo presente foi moldado ao longo dos anos por contextos diferentes, uma gozava de instituições inclusivas (Nogales, Arizona – EUA) e outra vivia num país sequestrado por um conjunto de práticas extractivas (Nogales, Sonora – México). A cidade dos Estados Unidos apresenta um nível de desenvolvimento muito acima da vizinha mexicana simplesmente porque a organização sócio-económica é regida por instituições inclusivas.

O conteúdo de “Why Nations Fail” (“Porque Falham as Nações” na versão portuguesa) é de tal forma informativo e formativo que eu sugiro a oferta de uma cópia a cada deputado da nossa Assembleia Nacional, pelo menos seria mais barato e mais útil do que a distribuição de carros de luxo que os nossos ilustres representantes usam para “negociar” com o trânsito e buracos das estradas subdesenvolvidas de Luanda.

Título: “Why Nations Fail – The Origins of Power, Prosperity, And Poverty” ou “Porque Falham as Nações: A Origem do Poder, da Prosperidade e da Pobreza”  | Autores: Daron Acemoglu e James Robinson

A geografia do comércio externo angolano e a ‘luandização’ do consumo

Todos sabem que o petróleo domina as exportações angolanas (96,22% em 2013) e que o petróleo produzido no norte é a vaca leiteira cá do sítio. Olhando para os números publicados pelo INE (Anuário de Estatística de Comércio Externo – 2013) e colocando números nas nossas suposições emerge a fotografia de uma família desequilibrada.

Considerando as exportações por casas fiscais, sobressai a delegação do Soyo com exportações de $50,7 mil milhões em 2012 e $49,7 mil milhões em 2013, as exportações processadas no Soyo, no total do país, em 2012 e 2013 representaram 71,9% e 73,5% respectivamente. Cabinda ocupa o segundo lugar com 25,3% (2012) e 23,2% (2013) enquanto que Luanda aparece em terceiro lugar entre os principais portos de exportação com 2,8% (2012) e 3,3% (2013).

O contraste aparece com os números sobre as importações. Luanda aparece a cabeça com $23,1 mil milhões em 2012 e $21,4 mil milhões em 2013 (80,2% e 77,4% do total), segue-se o Lobito com 8,2% (2012) e 11,3% (2013) e depois aparece Cabinda com 5,7% (2012) e 7,4% (2013).

exportsINE1213

Estes números revelam que as duas províncias mais a norte “exportam” mais de 90% e Luanda, Benguela e Namibe “importam” mais de 90%. Por detrás destes números há uma combinação da Angola contemporânea com a colónia portuguesa de outrora. Os principais centros urbanos na era colonial eram Luanda no litoral norte, Benguela no litoral sul e, Huambo e Huíla no centro sul. A norte Cabinda, Uíge e Malange tinham algum peso mas não na dimensão das terras mais a sul, apesar do norte ser já uma potência exportadora na altura com produtos agrícolas (designadamente café e algodão). Depois de três décadas de guerra civil com principal incidência no interior, o litoral emergiu com mais destaque ainda no pós-guerra e as assimetrias são evidentes.

Como Angola não é uma federação, grande parte das receitas fiscais são geridas centralmente e como o governo central está em Luanda (a estrutura central executa mais de 70% do OGE) grande parte do dinheiro é gerido/gasto em Luanda o que torna a capital muito atractiva para quem não encontra esperança no interior do país, daí o crescimento demográfico acelerado e desordenado que temos assistido. As empresas também preferem estar em Luanda e como os principais porto e aeroporto estão em Luanda num país que depende de importações para abastecer a dispensa Luanda que abriga cerca de 27% da população do país consome quase 70% da energia, tem 65% das agências bancárias, quase 60% das caixas automáticas (ATM), 40% das agências de seguros, a esmagadora maioria dos supermercados modernos e 80% das importações.

É obvio que Luanda não consome a totalidade do que chega ao seu porto mas fica com boa parte dos produtos que chegam ao país, exibindo uma força sem comparação no país e isto é uma péssima notícia. Um país tão grande e com tanto potencial não pode de forma alguma ter o consumo concentrado em tão reduzido território. Nos últimos 10 anos a redução das assimetrias regionais esteve sempre no discurso oficial e recentemente foi relevada por altura da inauguração da via-férrea que liga Lobito ao Luau, mas nada até agora conseguiu estancar o êxodo para Luanda que tem agravado os problemas urbanísticos e sociais da capital.

Vistos com múltiplas entradas? Yes.

Angola vai passar a emitir a partir de Março vistos de turismo com múltiplas entradas. É uma boa notícia para o turismo nacional e regional. Com múltiplas entradas um turista não só pode entrar em Angola, visitar a Namíbia (por exemplo) e regressar a Angola durante uma estadia por estas bandas como poderá fazer mais de uma viagem ao nosso país sem ter de passar outra vez pelos serviços consulares.

Os impactos desta medida nas visitas à Angola poderão estar limitados se a emissão de vistos (de turismo e outros) continuar a ser um processo caro e moroso. O potencial turístico existe, é preciso abrir as mentes e o país para o turista e a celeridade e flexibilidade (sem prejuízo da segurança) na concessão de vistos é uma condição necessária. No médio prazo, o objectivo deverá passar pela isenção de vistos para grandes emissores de turistas porque quanto menos barreiras melhor, por exemplo, seria útil isentar os sul-africanos no curto prazo e mais tarde alargar para alguns países europeus até mesmo que não esteja garantida a reciprocidade. Nos casos em que não seja possível a isenção, há que ser considerada a facilitação do processo.

Para já, a multiplicidade de entradas em determinadas tipologias de vistos até agora não abrangidas é uma boa notícia. #waytogo.

O governo comerciante

Nós temos empresas públicas que devem apoiar estes projectos nacionais, mas por falta de interesse o Governo tem a obrigação de gastar valores avultados para poder manter a estabilidade alimentar do país

Rosa Pacavira, Ministra do Comércio (19 Fev 2015, Huíla)

Segundo notícia da Angop, a ministra proferiu estas palavras na Huíla onde foi apresentar o novo alvará e visitou uma fábrica parada há dois anos (investimento de 70 milhões de dólares da Caixa de Segurança Social das FAA).

A nossa ministra acredita mesmo que o governo tem que ter um papel muito activo como operador económico para que as makas que afligem a nossa economia sejam resolvidas.

Eu não acredito e a história do estado angolano como operador económico não é muito auspiciosa, em particular no comércio.

Ronaldinho Gaúcho

Ronaldinho

O presidente do Kabuscorp Futebol Clube do Palanca disse que vai contratar Ronaldinho Gaúcho em Junho e espera que o craque brasileiro ajude a equipa a conquistar a CAF Champions League, uma competição que já começou e não existe qualquer garantia que o clube do Palanca continuará em prova em Junho.

Na verdade, a ser concretizada, a contratação da antiga estrela do Barcelona e da selecção do Brasil não será a primeira contratação sonante do clube do Palanca cujo presidente parece cultivar um certo apego por “grandes nomes”. Em 2012 Rivaldo representou o Kabuscorp e marcou 11 golos em 21 jogos no Girabola, o clube ficou em quarto a 16 pontos do campeão Libolo. Recentemente o astro congolês, Trésor Mptu Mabi juntou-se ao clube do Palanca, diz o povo que ganha mais de 1 milhão de dólares por ano e pelo contrato recebeu uma residência em Paris mas o clube ganhou apenas uma supertaça desde que a antiga estrela do TP Mazembe juntou-se à turma do Palanca.

Quando o Kabuscorp foi campeão em 2013, a estrela da companhia era o camaronês Meyong, com longa carreira em Portugal e provavelmente com um salário acima da média do Girabola mas nada comparável a “galáxia” de campeões do mundo Rivaldo ou Ronaldinho. A minha questão é: será que o Kabuscorp tem ganho alguma coisa com tais contratações desportiva e financeiramente? Será que o Girabola em particular e o futebol angolano no geral têm ganho alguma coisa com tais contratações?

Hoje não temos sequer uma liga de futebol ajustada à modernidade, os clubes têm muito poucas infra-estruturas de treinamento e investem pouco na formação, algo que é comum ouvir como sendo o calcanhar de Aquiles do nosso futebol. Contudo, sobra sempre dinheiro para contratações sonantes e salários elevados. Há não muito tempo o central português do Kabuscorp, Cláudio Borges (ex Petro) disse que os maiores clubes de Angola pagam melhor que quase todos clubes portugueses com excepção dos grandes e do Braga.

O futebol moderno é uma indústria. Os clubes funcionam como empresas que tentam angariar fundos para competir ao mais alto nível, com diferentes níveis de sucesso é assim que vivem hoje os clubes de futebol que competem nas ligas modernas pelo mundo afora. Entre as fontes de receita dos clubes destacam-se: venda de direitos de transmissão televisiva dos jogos, patrocínios, merchandising, naming rights, venda de ingressos e venda de direitos desportivos de atletas. Como qualquer negócio, existem também custos operacionais como salários, viagens, manutenção de infra-estruturas etc. Apesar da geração de receitas, os custos operacionais elevados têm posto em causa a sustentabilidade de muitos clubes europeus que têm igualmente dívidas elevadas para servir.

O nosso futebol, não gera receitas. Depende totalmente dos patrocinadores que, regra geral, são instituições públicas ou indivíduos politicamente expostos (PEP no acrónimo em inglês). Contudo, os nossos dirigentes estão dispostos a competir com clubes internacionais por direitos desportivos de jogadores que já brilharam nos principais palcos do futebol, mesmo sem vender camisolas, bilhetes, passes de atletas ou direitos televisivos o nosso futebol paga cada vez mais aos atletas e treinadores mesmo que o espectáculo por estes proporcionado não melhora. A formação também já teve melhores dias e todo este rol de insuficiências tem reflexos a nível da selecção que tem coleccionado decepções depois do apogeu alcançado em 2006 com a participação no mundial da Alemanha, curiosamente (ou não), a base da selecção que foi à Alemanha foi campeã africana em sub-20 na última grande “classe” de jogadores formados em Angola como Mantorras, Gilberto e Mendonça.

Provavelmente a missão de Bento Kangamba não é salvar o futebol angolano mas será que a contratação de “ex-grandes jogadores” irá tornar o Kabuscorp campeão africano? A motivação parece ter mais de vaidade do que de lógica desportiva e financeira uma vez que Ronaldinho Gaúcho já não é o mesmo desportivamente mas o seu nome custará muito dinheiro ao clube do Palanca, tanto que é impossível recuperar na actual estrutura do nosso triste futebol. Se calhar a lógica do nosso futebol é queimar dinheiro…

CFB, 48 horas do Lobito ao Luau?

Caminho-de-ferro de Benguela, do Lobito ao Luau
Caminho-de-ferro de Benguela, do Lobito ao Luau

Criar infra-estruturas que tornam o transporte de pessoas e mercadorias mais eficiente e barato é uma condição de base para se desenvolver um país. Não sei se a viagem “inaugural” entre o Lobito e o Luau (1300 km) foi mais longa do que o normal mas se 48 horas para ligar o Porto do Lobito a vila do Luau no Moxico for a norma, tenho muitas dúvidas sobre a eficiência do projecto. Em 2015, um percurso de 1300 km tem de ser feito em menos de 24 horas porque se para as mercadorias já é puxado para as pessoas é inadmissível.

Parece que muitos investimentos públicos realizados em Angola têm como principal missão a realização de um acto de “corte da fita” e as questões sobre a operação pós-inauguração tendem a ser negligenciadas. Muitas vezes vemos grandes investimentos órfãs de um estudo de viabilidade que possa validar a necessidade da realização de tal investimento. Por exemplo, o Luau, terra de menos de 90 mil habitantes vai ganhar também um aeroporto “internacional”, será que era urgente nesta fase? Será que o aeroporto inaugurado em Ndalatando em 2012 serve melhor a cidade do que uma auto-estrada Luanda-Dondo-Huambo? Será que o aeroporto do Luau serve melhor o país do que a inexistente auto-estrada Luanda-Benguela-Lubango?

Desenvolver não é fácil e com recursos limitados é mais difícil ainda. É um exercício que exige sentido de missão e serviço público, sensibilidade social e competências sobre desenvolvimento económico.

Criar uma infra-estrutura que pouco serve a sociedade não é investir. É fundamental definir prioridades e escolher em conformidade.

Os dólares, o BNA, a ABANC e a confiança.

Nos últimos dias  o BNA – via governador ou comunicados – tem vindo a afirmar que não existem quaisquer razões para as restrições no acesso à divisas que se tem verificado. O BNA basicamente tem dito que a falta de divisas é culpa dos bancos comerciais que “anteciparam uma crise” e assim determinam a sua actuação.

Contudo, a lógica pregada pelo BNA não casa com a realidade. Na verdade, a transacção de divisas é um bom negócio para os bancos e nenhum comerciante deixa de vender um bom produto de bom grado. As contas dos bancos comerciais certamente serão negativamente afectadas pela redução da venda de divisas aos seus clientes pelo que não faz muito sentido dizer que a falta de divisas resulta da trungunguice dos bancos. Em boa verdade, o silêncio da ABANC não deixa a associação do sector bancário muito bem na fotografia porque ver os seus associados “apanhar” diariamente do regulador e dos meios de comunicação social sem qualquer reacção não é bem o que se espera de uma associação.

O governador do BNA disse recentemente que o banco central aumentou a venda de divisas em relação à média mensal de 2014 o que não é o que revelam os números publicados pelo BNA no seu site. As vendas de janeiro de 2015 foram quase 30% abaixo da média mensal de 2014.

DivisasVSImports

Vale lembrar que em 2013 entrou em vigor um novo regime cambial para o sector petrolífero que permitiu a venda directa de divisas das petrolíferas para os bancos, pelo que, os valores apresentados pelo BNA (dos leilões em mercado primário) não correspondem a todo o mercado, o que torna claro que as médias de 2014 e 2015 não são representativas da procura do mercado pré-reversão do regime cambial do sector petrolífero que foi alterado na segunda metade de 2014 após mais de um ano de vigência. O BNA voltou a ser a fonte exclusiva de dólares do sector financeiro angolano, mas passou a disponibilizar menos divisas do que antes e retirou a possibilidade de compras directas junto das petrolíferas.

A procura por moeda estrangeira não pode ser dissociada da evolução económica do país, nomeadamente do crescimento das importações e transferências de capital para o exterior como o aumento do investimento no exterior que tem superado o IDE de forma consistente nos últimos anos.

Por isso, para melhor entender a situação actual, seria útil o BNA e os bancos comerciais apresentarem números sobre o período de vigência do regime cambial para o sector petrolífero para termos uma fotografia mais clara do que se perdeu com a reversão do regime em termos de divisas disponíveis no sector financeiro. A falta de comunicação clara (e isenta) do banco central e a comunicação inexistente da ABANC não contribuem para construção da verdade e quando existe silêncio num contexto de incertezas nascem a especulação e a desinformação, tratando-se do sistema financeiro fica em risco o principal activo de um sistema financeiro: a confiança.

Volto a lembrar que o problema monetário da nossa economia exige uma solução para o problema económico. Ver o nosso banco central a falar mais de dólar do que de kwanza nos últimos tempos é demonstrativo que ainda não conseguimos criar uma moeda que transmita segurança e que possa ser a base para todas as nossas transacções.

Temos que importar menos, diversificar as exportações, repensar os investimentos no exterior e atrair mais investimento externo de forma a reduzir a procura por divisas e aumentar a confiança no kwanza. A alternativa, em nome da estabilidade monetária, é radical: adopção do dólar como moeda nacional.

Segurados descontentes com as seguradoras

Segundo reportado pela revista Economia & Mercado, um estudo da Accenture revela que 83% dos clientes das seguradoras angolanas quer trocar de seguradora.

83% a querer saltar do barco é muito pouco abonatório para o sector segurador, um sector que segundo dados da ARSEG (Agência Angolana de Supervisão e Regulação de Seguros) gerou um volume de prémios de USD 915 milhões em 2012 e em que operavam 15 seguradoras. O número de seguradoras tem aumentado e os resultados económicos também, boa parte do crescimento não deriva de melhor capacidade comercial mas sim de legislação que favorece o negócio, e isto não é necessariamente negativo. Na verdade, o objectivo por detrás da instituição de seguros obrigatórios específicos é a protecção do património e desta forma beneficiar todos os envolvidos.

Mas na realidade, o benefício global do seguro precisa do cumprimento global das responsabilidades. Não adianta obrigar as pessoas a pagar os seguros se as seguradoras podem “mandar lixar” os segurados sem que sejam punidas. Se 83% dos segurados quer trocar de seguradora, certamente boa parte do sector funciona mal para os clientes e este número não pode ser ignorado nem pela ASAN (Associação de Seguradoras de Angola) nem pelo regulador.

As seguradoras têm um papel fundamental numa economia de mercado não só por protegerem o património mas também pela sua natureza como investidor institucional por excelência, se hoje as alternativas de aplicação de liquidez das seguradoras é limitada pelo próprio desenvolvimento económico de Angola, com o crescimento do mercado de capitais e o aparecimento de produtos de investimento mais sofisticados as seguradoras assumirão um papel de destaque entre os grandes investidores. Em 2012 as seguradoras angolanas tinham cerca USD 1,7 mil milhões em activos (USD 451 milhões investidos) mas o crescimento do sector poderá fazer aumentar estes números exponencialmente se a taxa de penetração passar dos cerca de 1% actuais para, por exemplo, 2% do PIB. Mas este crescimento tem necessariamente de ser acompanhado do aumento da qualidade global do serviço sob pena de estarmos a criar um monstro sustentado por “clientes forçados” pela lei e não clientes conquistados pelo serviço.

No papel, a concorrência fará melhorar a qualidade do serviço no médio-prazo mas a ARSEG tem que garantir que os segurados não só cumprem com os seus deveres mas também, que gozem de todos os benefícios assegurados contratualmente.

P.S: Considerando uma taxa de penetração de 1% e um PIB de USD 131 mil milhões para 2014 (FMI), o sector segurador angolano gerou um volume de prémios de USD 1,3 mil milhões no ano passado. Este número – no critério volume de prémios – torna o nosso sector segurador no segundo maior da SADC a seguir à África do Sul e a frente da Namíbia, o potencial é grande se olharmos para baixíssima taxa de penetração.