A geografia do comércio externo angolano e a ‘luandização’ do consumo

Todos sabem que o petróleo domina as exportações angolanas (96,22% em 2013) e que o petróleo produzido no norte é a vaca leiteira cá do sítio. Olhando para os números publicados pelo INE (Anuário de Estatística de Comércio Externo – 2013) e colocando números nas nossas suposições emerge a fotografia de uma família desequilibrada.

Considerando as exportações por casas fiscais, sobressai a delegação do Soyo com exportações de $50,7 mil milhões em 2012 e $49,7 mil milhões em 2013, as exportações processadas no Soyo, no total do país, em 2012 e 2013 representaram 71,9% e 73,5% respectivamente. Cabinda ocupa o segundo lugar com 25,3% (2012) e 23,2% (2013) enquanto que Luanda aparece em terceiro lugar entre os principais portos de exportação com 2,8% (2012) e 3,3% (2013).

O contraste aparece com os números sobre as importações. Luanda aparece a cabeça com $23,1 mil milhões em 2012 e $21,4 mil milhões em 2013 (80,2% e 77,4% do total), segue-se o Lobito com 8,2% (2012) e 11,3% (2013) e depois aparece Cabinda com 5,7% (2012) e 7,4% (2013).

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Estes números revelam que as duas províncias mais a norte “exportam” mais de 90% e Luanda, Benguela e Namibe “importam” mais de 90%. Por detrás destes números há uma combinação da Angola contemporânea com a colónia portuguesa de outrora. Os principais centros urbanos na era colonial eram Luanda no litoral norte, Benguela no litoral sul e, Huambo e Huíla no centro sul. A norte Cabinda, Uíge e Malange tinham algum peso mas não na dimensão das terras mais a sul, apesar do norte ser já uma potência exportadora na altura com produtos agrícolas (designadamente café e algodão). Depois de três décadas de guerra civil com principal incidência no interior, o litoral emergiu com mais destaque ainda no pós-guerra e as assimetrias são evidentes.

Como Angola não é uma federação, grande parte das receitas fiscais são geridas centralmente e como o governo central está em Luanda (a estrutura central executa mais de 70% do OGE) grande parte do dinheiro é gerido/gasto em Luanda o que torna a capital muito atractiva para quem não encontra esperança no interior do país, daí o crescimento demográfico acelerado e desordenado que temos assistido. As empresas também preferem estar em Luanda e como os principais porto e aeroporto estão em Luanda num país que depende de importações para abastecer a dispensa Luanda que abriga cerca de 27% da população do país consome quase 70% da energia, tem 65% das agências bancárias, quase 60% das caixas automáticas (ATM), 40% das agências de seguros, a esmagadora maioria dos supermercados modernos e 80% das importações.

É obvio que Luanda não consome a totalidade do que chega ao seu porto mas fica com boa parte dos produtos que chegam ao país, exibindo uma força sem comparação no país e isto é uma péssima notícia. Um país tão grande e com tanto potencial não pode de forma alguma ter o consumo concentrado em tão reduzido território. Nos últimos 10 anos a redução das assimetrias regionais esteve sempre no discurso oficial e recentemente foi relevada por altura da inauguração da via-férrea que liga Lobito ao Luau, mas nada até agora conseguiu estancar o êxodo para Luanda que tem agravado os problemas urbanísticos e sociais da capital.

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